19 de dezembro de 2010

A face original...


"No zen, eles dizem que o real é a face original - a face que você tinha antes de seu nascimento e a face que você terá depois da morte. Isto significa que todas as faces na vida, a suposta vida, são falsas.
Como descobrir qual é a face real? Você terá que voltar para antes do seu nascimento. Este é o único jeito de se descobrir a face real, porque no momento que você nasce, você começa a ser falso.(...) A criança nasce e começa a ser política. No momento em que ela começa a se relacionar com o mundo, com os pais, ela está na política. Agora ela tem de tomar cuidado com as suas faces. (...)
Assim, todas as faces são falsas. Não tente descobrir a real entre suas faces atuais. Elas são todas falsas. Elas são úteis, - eis porque elas foram adotadas - utilitários, mas não verdadeiras.(...) Reagindo a uma face falsa, você irá criar uma outra face falsa. Então, o que deve ser feito?

O real não é algo que tem que ser conquistado. O falso é uma conquista. O real não é algo para ser conquistado, ele não é alguma coisa para ser cultivada. Ele é algo para ser descoberto! Ele já está presente!
Você não precisa tentar alcançá-lo, porque qualquer esforço levará somente para uma outra face falsa. Para uma face falsa o esforço é necessário; ela tem de ser cultivada. Para a face real, você não tem de fazer nada, ela já está presente. Se você simplesmente deixa seu apego às faces falsas, o falso irá cair e aquilo que é real permanecerá. Quando você não tem nada para abandonar, e somente aquilo que não pode ser abandonado estiver presente, você compreenderá o que é o real.

A meditação é o caminho para abandonar as faces falsas. Eis por que há tanta insistência em ficar sem pensamento - porque sem pensamento você não pode criar uma face falsa. Em um estado de consciência sem pensamento, você será real - porque é basicamente o pensamento que cria as máscaras e as faces falsas. Quando não há pensamentos não pode haver face. Você estará sem face, ou com a face real - e ambos significam a mesma coisa.

Assim esteja consciente de seu processo de pensamento. Não lute com ele, não o reprima. Simplesmente tenha consciência: os pensamentos são apenas como nuvens no céu, e você olha para elas sem preconceito, nem a favor nem contra. Se você for contra, você estará lutando - e essa própria luta criará um novo processo de pensamento. Se você for a favor deles, você esquecerá de si mesmo e irá flutuar na correnteza do processo mental. Você não estará presente como uma testemunha consciente. (...)

Assim, não seja nem a favor nem contra. Permita que os pensamentos se movam, deixe-os ir aonde quer que eles estejam indo, esteja em uma profunda entrega e simplesmente testemunhe. Não julgue; não diga: isso é bom, isso é ruim. (...) No momento em que você diz isso, você está se identificando com ele e você está cooperando com o processo de pensamento. E se você o está alimentando, ele nunca pode cair.(...) Não seja nem a favor, nem contra. Simplesmente olhe com olhos sem preconceitos, apenas observando, indiferentemente.(...)

Na meditação, você não deve reprimir nenhum pensamento. Mas isso é difícil, porque toda mente consiste em julgamentos, teorias, ismos, doutrinas, crenças. Assim, alguém que é muito obcecado por uma idéia, uma filosofia ou uma religião, não pode realmente entrar em meditação. É difícil, porque sua obsessão se tornará a barreira. (...) Alguém que queira ir fundo em meditação tem que estar consciente dessa tolice de ideologia. (...)

Quando não há pensamento, não há ideologia, não há sociedade. Quando não há pensamento, não há o outro. Quando não há nenhum outro, nenhuma sociedade, você não precisa de nenhuma face. O estado de não-pensamento é sem-face. Nesse intervalo, quando um pensamento partiu e outro não apareceu, nesse intervalo, pela primeira vez, você conhecerá em realidade qual é a sua face - a face que você tinha quando não era nascido e a face que terá quando morrer.(...)
E uma vez que conheça a face real, uma vez que você sinta essa natureza interior que os budistas chamam de buddha swabhava -a natureza do Buda interior - quando você chegar a sentir essa natureza interior mesmo uma vez, mesmo com um simples lampejo, você será uma pessoa diferente, porque agora então, você constantemente saberá o que é falso e o que é real. Então você terá o critério.(...)
Somente através da meditação você será capaz de aprender o que é uma falsa imagem e o que é uma face real, autêntica."
Osho em O livro dos Segredos 2

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