11 de outubro de 2010

Uma Experiência do Despertar...


"Eu sou holandês, 43 anos, pai de três filhos, e vivia uma "vida normal" na qual era eu quem fazia e escolhia todas as coisas que aconteciam com toda a confusão, diversão e agonia emocionais que ser uma pessoa nos traz. Eu nunca tinha ouvido as palavras Advaita, Não dualidade, Consciência, Despertar, Iluminação e outras do gênero.

Então, devido a alguns sérios acontecimentos em minha vida, eu decidi que deveria olhar para ela de uma maneira mais profunda - as coisas não podiam continuar como estavam.(...) Fui fazer terapia, li montes de livros, fiz mais terapia, não tive respostas satisfatórias, e um dia alguém me deu um livro sobre Consciência. Isso ressonou imediatamente, muito embora eu não tivesse entendido absolutamente nada do que ali se dizia. Depois de algum tempo, eu decidi abandonar tudo o que dissesse respeito à psicologia e Advaita se tornou a única Verdade, acima de tudo o mais. Eu tinha encontrado o Caminho; ali todas as minhas perguntas seriam respondidas. (...)

Entretanto, nesse meio tempo eu fui a uma reunião com alguém que comunica sobre não dualidade. Após o primeiro fim-de-semana escutando essa comunicação, eu fui para casa me sentindo bastante estranho, desconsertado, fascinado, amedrontado, derrotado, virado pelo avesso, calmo, cheio de certezas, "Isto" era o que é, perdido, em casa, etc, etc... Dá para entender?
Somente três meses depois, em minha casa, "meu mundo", como eu conhecera por 40 anos, desfez-de em pedaços, desmoronou completamente. De forma totalmente inesperada, sem que eu tenha feito qualquer coisa, sem qualquer esforço, todo o significado de "eu".
No início eu não tinha a menor ideia do que tinha acontecido, levou algum tempo até que fosse percebido e reconhecido que o Despertar tinha "acontecido".e ser "eu", desapareceu, e com ele o mundo como eu aprendera a "conhecer e entender". (...)

Quando o Despertar "aconteceu", isso ficou totalmente claro. É impossível dizer em palavras o que aconteceu, mas eu vou tentar.
De maneira totalmente inesperada, surpreendentemente, "eu", o sempre presente senso de "mim", caiu, desapareceu. Tudo ficou absolutamente "claro" sem que um conhecedor (eu) estivesse presente. Quando o Indivíduo desaparece, a natureza não dual d"Isto" é imediatamente reconhecida como "Tudo que É". O ver acontece num flash atemporal, o "evento" do Despertar não pode ser descrito com precisão.

Foi "percebido" que aprender, meditar ou fazer qualquer esforço não é necessário e nem pode fazer "Isto" acontecer, porque todas essas "ações" e ideias são "Isto"! Incluindo o senso de"eu". Foi visto que ler, escrever, estudar, fazer retiros, confusão, claridade, ação, não-ação, escolher, etc, etc, nunca foi feito por "mim". Tudo é reconhecido e se revela como já sendo a expressão d"Isto". Isso inclui tudo, toda concebível aparência, sentimento, emoção e pensamento, e, obviamente, toda dualidade. Não existem níveis . Não existe realidade absoluta nem realidade empírica. Isso é um constructo do pensamento. Não existe realidade final nem última; "realidade" não pode ser definida (ou dividida em duas). Qualquer experiência é o irreal aparecendo como real, o não manifesto aparecendo como manifestação.(...)

Uma enorme quantidade de energia "deixou" o meu corpo em espasmos, e isso durou, indo e vindo em ondas, cerca de uma hora e meia, as ondas de contrações gradualmente se enfraquecendo. Depois disso, fui sendo levado a ser e a não ser "eu", e lá estive sendo Ninguém por três dias, nos quais o senso de "mim" gradualmente se tornou mais e mais forte de novo, mas sua realidade havia morrido. Isso é um deslocamento, um salto para outra dimensão, impossível de ser alcançado pelo pensamento ou aprendido por conhecimento. Acontece ou não acontece, mas quando acontece, é compreendido. É uma transformação de explodir o pensamento e a mente.

Quando o "eu" desaparece no despertar, ele perde toda a sua realidade, e torna-se óbvio, sem sombra de dúvida, que ele nunca "fez" nada, "eu" nunca fiz nada, tudo "acontece" como acontece, quando acontece. Isso também vale para "Despertar e Liberação", evidentemente. Ou acontece ou não acontece, como tudo o mais, e nenhum indivíduo pode fazer "Isto" acontecer, porque não existe nenhum indivíduo. Entretanto, a "pessoa", "eu", tenta retornar à vida desesperadamente, velhos hábitos custam a morrer e nenhum custa mais que "eu". Parecia que eu estava de volta à estaca zero, de volta ao hábito de pensar a minha vida, que o "eu" que decide e sabe estava comandando o show novamente.

Mas não estava.

Por que o que foi visto no Despertar, por Ninguém, havia mudado tudo para sempre. No Despertar existe um reconhecimento, uma lembrança de "antes" de todo o conhecimento aprendido, uma percepção do que a Advaita indica como antes e além de toda palavra e pensamento cognitivo...

Uma pequena lista:
* Tempo, distância e espaço desaparecem, "Isto" é ilimitado, imensurável.
* "Eu e todos os Outros" não existem separadamente, não há "coisas", não há "você e eu".
* Um conhecimento inexplicável de que "Isto" é completo, inteiro, e não poderia ser de nenhum outro jeito.
* Um estranho e maravilhoso sentimento de "amor" por tudo que é, do jeito que é.
* Nenhum eu, nenhum executante, nenhuma escolha, ninguém a quem "Isto" esteja acontecendo;
Muito mais coisas poderia dizer, mas por hora é o suficiente.

Depois disso, um período de um ano e meio se seguiu no qual todo o "conhecido" (e a batalha perdida do "eu") se dissolveu no Não-saber. Toda a literatura que ainda é devorada, todos os retiros, todo novo conhecimento, tudo parece apontar apenas para a sua própria dissolução no não-conhecido, para renascer em seu próprio mistério de apenas aparecer, sem qualquer necessidade ou possibilidade de saber o que (ou como) "Isto"é. Então, uma tarde, muito suavemente, o último sopro de individualidade foi exalado, apenas aconteceu, muito silenciosamente. Os últimos "por que(s)" e "se(s)" simplesmente desapareceram.

Isso não significa que perguntas não possam ainda acontecer, só que a crença de que as respostas irão na direção de alguma outra coisa além d"Isto", desapareceu. Não existe mais nada.

Por um lado, essa manifestação continua exatamente como era "antes". Emoções, pensamentos, sensações corporais, saúde, doença, ação, repouso, gostos e desgostos, etc, etc, ainda continuam. Por outro lado, nada é mais o mesmo. Porque o "você, eu, mim", a parte separada do todo a quem tudo isso estava acontecendo, não existe mais. A energia de ser "alguém", dentro de um corpo, uma "coisa", aquele sentimento de contração se transforma, é liberado, expande para ser "Tudo". Isso traz à luz uma revelação - ou mesmo uma revolução - na percepção do que era anteriormente a "sua vida".

O que fica é a absoluta maravilha d'Isto", mas é impossível descrever o que é que se sente quando existe apenas "tudo o que é", sem o indivíduo ilusório (e sem poder) no centro, pensando freneticamente o ele tem que "fazer" da sua vida.

Por um longo tempo eu não fui capaz de falar sobre o que aconteceu. Eu não podia concatenar os pensamentos e frases sobre o que acontecera de forma lógica e compreensível. Isso, às vezes, era frustrante, eu queria compartilhar essa maravilha com as pessoas e não havia um meio com o qual eu o pudesse fazer. Apenas recentemente eu fui capaz de falar um pouco sobre isso, e, lendo esse texto, novamente me impressiona o quanto as palavras são inadequadas como um meio de descrever a "Vida", "Isto".

Para mim, umas poucas palavras que servem de indicadores são: liberdade, alegria, eterna renovação, fascinação, temor, puro, direto, qualquer aparência é livre, vida, espanto, infinidade..."
Por Aad van Vendeloo

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