5 de outubro de 2013

O Sonho hipnótico da separação - Tony Parsons


"Não existe nem eu, nem você, nem buscador, nem iluminação, nem guru, ou discípulo. Não existe melhor ou pior, nem caminho nem propósito, nem nada que tenha que ser conquistado.

Toda aparência é a fonte. Tudo o que aparentemente se manifesta no sonho hipnótico da separação - o mundo, a história da minha vida, a busca do lar, é o Uno aparecendo como Dois, o Nada aparecendo como Tudo, o Absoluto aparecendo como o Particular.

Não há nenhuma inteligência separada tecendo um destino e nenhuma opção funcionando em nenhum nível. Nada está acontecendo, mas isto, tal como é, convida o aparente buscador a redescobrir que é na verdade...o permanente, incondicional. É o maravilhoso mistério.

Ver ou não Ver.
A natureza da unidade é incompreensível e por tanto qualquer comunicação a respeito só pode ser uma interpretação de idéias que a envolvem. Estas idéias podem ser geradas a partir da confusão ou da claridade. Sem dúvida, sugerir que uma idéia é melhor que a outra e que divulgar ou escutar estas idéias é uma opção pessoal, seria uma contradição da essência mesma da percepção do Advaita.

A comunicação da confusão é tanto uma expressão da unidade como a claridade que se expõe.(...)

A palavra Advaita significa "Não dois", e expressa na medida do possível com palavras a percepção de que tudo o que existe já é somente a unidade, e que não há nada mais que isto.

Quando isto é visto claramente por ninguém, fica claro completamente que a idéia de que sujeito e objeto são meramente conceitos ilusórios mantidos dentro do sonho hipnótico da separação.
Em consequência, a idéia de que uma pessoa aparentemente separada (sujeito) possa optar por obter a iluminação (objeto) se torna completamente irrelevante. 
Também se torna claro que todas as práticas ou esforços por conseguir um caminho que conduz a uma meta futura, só faz reforçar continuamente o sentido de  busca pessoal e é uma negação direta da unicidade permanente.

A idéia que supõe a possibilidade de que as práticas dualistas podem levar o aparente buscador a percepção da não dualidade, é similar a idéia de que com o esforço suficiente e determinação se pode ensinar um cego a enxergar.

As doutrinas, os processos e as vias progressivas que buscam a iluminação, só pioram o problema daqueles a quem se dirigem, reforçando a idéia de que o eu aparente pode encontrar algo que supõe ter perdido. É este esforço mesmo, este reforço a auto-identidade é que recria continuamente a ilusão de separação da unidade. 
Este é o véu que acreditamos que exista. É o sonho da individualidade.

De todos os muitos "despertares" que se tem descrito, continuamente se confirma que uma das primeiras realizações que surge é ver que nada desperta. E sem dúvida, vemos que a maioria dos ensinamentos, tanto tradicionais como contemporâneos estão constantemente falando para um aparente buscador separado (sujeito) e recomendando que, afim de alcançar a iluminação ( objeto ) devem escolher a meditação, a auto-indagação, a purificação, cultivar o conhecimento, apaziguar a mente e o ego, a entrega, ser honesto, fazer terapias, buscar sinceramente, renunciar à busca, não fazer nada, estar aqui e agora, e assim sucessivamente... as idéias são tão intermináveis e tão complicadas como a mente que as gerou.

Estas recomendações surgem da crença de que a "iluminação" do "mestre" foi alcançada, ou conquistada através da aplicação da escolha, do esforço, a aceitação ou a entrega, e que outros buscadores podem ser ensinados a fazer o mesmo.

É claro que não pode haver nada bom, nem mau com a busca fervorosa, a meditação, a auto-indagação, o conhecimento e assim sucessivamente. Eles são simplesmente o que parecem ser. 
Mas, quem é o que escolhe fazer esforço? Onde está o esforço que será necessário para o buscador aparente? Onde se tem que ir se só existe a Unidade? Se não existe indivíduo separado não há vontade, e assim, como pode uma ilusão dissipar-se a si mesma?

O conceito de iluminação pessoal, surge na mente, e estabelece uma estrutura falsa que consiste em um "ego espiritual" o assim chamado "eu superior", que adotou ou foi atraído por uma séria de ensinamentos sobre a necessidade de auto-purificação, por exemplo, e que ao término dessa empreitada, obteve o prêmio da iluminação. Depois, tenta disciplinar o chamado "eu inferior" para que faça tarefas que parecem ao "eu inferior" contrárias à sua natureza. 
Aqui resite a fonte do conflito, a confusão e a separação da insuficiência e a desilusão que é imensa na busca. É também a razão principal porque até recentemente , a liberação aparente fosse tido como uma ocorrência rara.
Mas, quando a liberação surge aparantemente se vê que não há diferença entre estar dormindo ou estar desperto.

O que se pode ver, a expressão radical, clara e inflexível do Absoluto não dualismo é raramente comunicada. Sem dúvida, para se entender que um tipo de mensagem é mais verdadeiro que outra, seria tão dualista como pensar que existe uma brecha entre o absoluto e o relativo. Não existe tal coisa como verdade, somente existe o que é, tal como é.

Não obstante, o aparente buscador deveria solicitar "orientação" então, haveria uma resposta direta da claridade impessoal que de maneira constante, inflexível destruirá a ilusão. Esta resposta surge sem naturalmente, sem nenhuma relação com as tradições, crenças, compreensão, consideração pessoal, estética ou qualquer outra coisa que surja da mente de quem sonha.

O que mais se desejava e se temia é a ausência... a ausência do "eu" que se sente separado. Nesta ausência surge outra possibilidade, que está absolutamente mais além da idéia de compreensão, ensinamento, ou dever, ou destino, ou karma e a realização pessoal. Parece que há uma considerável disposição para escutar esta mensagem rara, simples e incrível.
Será escutada ou não será escutada, e isto é tudo que há.

E de onde se comunique e sempre que se comunique este conhecimento, não tem nenhuma relação com o fato de se obter um fim, e não com qualquer crença, caminho ou processo. Não se pode ensinar, mas se pode compartilhar continuamente. Porque ele é a nossa herança, não precisa ser discutido, testado, enfeitado; se mantém como está simplesmente como é, e só pode ser permanentemente não reconhecido ou rejeitado, ou realizado e vivido." 
Tony Parsons em The Open Secret

2 comentários:

  1. Boa Noite, Amida Prem,
    Muito bom este texto, nos alerta que, se nos apegamos a conceitos de"busca", "despertar", "purificação ", etc; estes nada mais são do que aspectos do Ego, que, paradoxalmente, impossibilitam a trancendê-lo.
    Obrigado por compartir.
    Bjs.

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