8 de outubro de 2013

Sobre o Misticismo - Osho 1/2


"Misticismo é a experiência de que a vida não é lógica, de que a vida é poesia; de que a vida não é silogismo, de que a vida é uma canção.
Misticismo é a declaração de que a vida nunca pode realmente ser conhecida; ela é essencialmente misteriosa.

A ciência divide a existência em duas categorias: o conhecido e o desconhecido; O conhecido foi um dia desconhecido, ele se tornou conhecido; O desconhecido é desconhecido hoje, amanhã ou depois ele também vai se tornar conhecido. A ciência acredita que mais cedo ou mais tarde vai se chegar a um ponto de entedimento em que haverá apenas uma categoria: o conhecido, tudo terá se tornado conhecido. O desconhecido está sendo lentamente reduzido ao conhecido.

O misticismo é a declaração de que a vida consiste em três categorias: uma, o conhecido; outra o desconhecido ; e a terceira e mais importante, é o incognoscível - que não foi conhecido e que nunca será conhecido. E esse é o centro de tudo.

Esse incognoscível pode ser experimentado, mas não conhecido. Não pode ser reduzido ao conhecimento, embora seu coração possa cantar sua canção. Você pode dançá-lo, pode vivê-lo, pode estar repleto e inundado dele - pode estar possuído por ele -, mas não será capaz de conhecê-lo.

É como um rio que desaparece no oceano. Você acha que o rio vem a conhecer o oceano? Ele se torna o oceano, mas não há conhecimento nisso. Na verdade, quando você se funde a alguma coisa, como pode "saber"? 
O conhecimento requer divisão. (...) O objeto tem de ser separado do sujeito; o conhecedor tem de manter uma distância do conhecido. Se a distância desaparece, não haverá conhecimento possível.

E é isso que acontece no misticismo: o buscador se funde com o buscado, o amor se dissolve no amado, a gota de orvalho desliza, cai no oceano e se torna oceano. Não há conhecimento. Em tal unidade o conhecimento não é possível. Em tal unidade há apenas experiência, e não a experiência de algo externo a você, mas de algo dentro de você. É mais experienciar do que experimentar.

A palavra misticismo vem de uma palavra grega " mysterion" que significa "cerimônia secreta". As pessoas que tocaram o incognoscível se reúnem para compartilhar. O compartilhamento não é verbal; não pode ser verbal. O compartilhamento é do seu ser; eles derramam seu ser um no outro. Dançam juntos, cantam juntos, olham nos olhos um do outro ou simplesmente sentam-se juntos em silêncio.
Isso foi feito com Buda, com Krishna, com Jesus, de maneiras diferentes. Os adoradores de Krishna dançavam com ele. Isso eram mysterion, uma cerimônia secreta. Se você olhar de fora para o que está acontecendo, não conseguirá, saber o que está realmente acontecendo. A menos que se torne um participante, a menos que você dance com Krishna, não saberá o que está sendo compartilhado, porque o que está sendo compartilhado é invisível. Não é uma mercadoria, não pode ser transferido de uma mão para outra; você não verá nada parecido com isso acontecendo. Não é algo objetivo; É o fluir de um ser em outro, o fluir da presença do mestre no discípulo.(...)

O mesmo estava acontecendo com Buda, sem dança visível. Buda ficava sentado em silêncio, seus discípulos ficavam sentados em silêncio; isso era chamado satsang, "estar em verdade". Buda tinha se iluminado; tornou-se uma luz em si mesmo. Outros que ainda não estavam iluminados, cujas velas ainda não haviam sido acesas, sentavam-se próximos a ele, em intimidade, em profundo amor e gratidão. Em seu amor, em seu silêncio, tornavam-se cada vez mais próximos de Buda. Lentamente, muito lentamente, chega um momento em que o espaço entre o mestre e o discípulo desaparece - e há o salto da chama do mestre para o discípulo. O discípulo está pronto para recebê-la; o discípulo é bem-vindo. O discípulo é uma receptividade, um útero. Isso também é um mysterion, uma cerimônia secreta.

Isso acontecida repetidas vezes com Zaratustra, com Lao-tsé, com Jesus, de maneira diferentes. É o que está acontecendo aqui. Enquanto estou falando com você, se você for apenas uma pessoa curiosa que veio aqui para escutar e ver o que está acontecendo, escutará apenas as minhas palavras. Perderá o verdadeiro tesouro. As palavras são faladas apenas para aqueles que não conseguem escutar o silêncio.

Mas aqueles que se tornaram íntimos meus, aqueles que se tornaram sannyasins, estão ouvindo as palavras, mas não estão de maneira alguma as dissecando, as analisando ou argumentando intelectualmente com as palavras. As palavras são ouvidas como alguém ouve música; as palavras são ouvidas como alguém ouve o vento soprado entre os pinheiros; as palavras são ouvidas como alguém ouve as gotas de chuva caindo no telhado ou o rugido das ondas no oceano. E, enquanto a mente está ouvindo a música, o coração começa a absorver o Ser, a Presença; Isso é mysterion, isso é a cerimônia secreta.

Mas porque é chamada de secreta? Não é secreta no sentido de que a estejamos ocultando em algum lugar de uma caverna. É secreta porque só está disponível quando você está relacionado com o mestre em amor profundo. (...)

Para saber algo do que está acontecendo aqui, a pessoa terá de se tornar um participante, terá de entrar em profunda harmonia comigo e com o espaço que está sendo criado aqui. Não pode ser um espectador apenas. Não pode observar de fora. Essas coisas não são observadas de fora, elas são secretas, são profundas.

Você tem de se dissolver. Tem de arriscar. Só então haverá algum sabor. Só então haverá alguma experiência em seu coração. Só então alguma vibração penetrará em você e se tornará parte da sua vida. Esse é o significado da "cerimônia secreta". Ela está disponível para qualquer um ver, mas só aqueles iniciados nela serão realmente capazes de vê-la.

Mysterion por sua vez, vem de outra raiz "myein", que significa "manter a boca fechada". Misticismo significa que você viu alguma coisa, experienciou alguma coisa, mas não pode expressá-la. Misticismo significa que você se deparou com uma verdade que o deixa mudo. É tão grande, tão imensa, tão enorme, que não pode ser contida em nenhuma palavra.
Nem mesmo a palavra Deus pode contê-la. Por isso Buda eliminou a palavra Deus. É maior do que aquilo que a palavra Deus pode conter. Nem a palavra alma pode contê-la; por isso Buda eliminou essa palavra também. Essa são apenas palavras, a realidade é bem mais rica." [ continua...]
Osho em Inocência, conhecimento e encantamento.

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