10 de outubro de 2012

Buda e a Linguagem autêntica...

"Entendam que, toda a existência festeja sempre que alguém se torna iluminado, porque é uma parte da própria existência que está chegando à sua expressão máxima, uma parte da existência que está se tornando um Everest, o ponto culminante.

Naturalmente a iluminação é a coroação de glória da existência, é o próprio anseio do Todo de se iluminar um dia, dispersar toda a inconsciência e inundar a existência inteira com consciência e luz....destruir toda aflição e trazer tantas flores de alegria quanto possível. (...)

Uma coisa precisa ser entendida: o budismo não acredita em um Deus, nem o Jainismo, mas acreditam em deuses. Eles são muito mais democráticos em seus conceitos.(...) Mas o budismo tem uma abordagem totalmente diferente, mais democrática e mais humana. Ele concebe milhões de deuses.

Na verdade todo ser que existe precisa se tornar um deus um dia. Quando ele se ilumina torna-se um deus. De acordo com o budismo não existe um Deus criador, e isso traz dignidade a todos os seres. Você não é uma marionete, você tem uma individualidade, uma liberdade, e uma dignidade. Ninguém pode criá-lo, ninguém pode destruí-lo. Daí surgiu um outro conceito: ninguém pode salvá-lo, exceto você mesmo. (...) A liberdade precisa ser conquistada e não mendigada; a liberdade precisa ser arrebatada e não pedida em oração. A liberdade concedida a você por compaixão, como uma dádiva não tem muito valor; Por isso no budismo também não existe um salvador, mas existem deuses, os que se iluminaram antes de você. Desde a eternidade, milhões de pessoas devem ter se iluminado e todas elas são deuses.

Estes deuses ficaram perturbados quando Sidharta Gautama permaneceu sete dias em silencio após se iluminar. Esse é um fenômeno tão raro e único que a própria alma da existência espera por ele. (...) E se Gautama resolvesse permanecer em silencio, essa é uma possibilidade natural para a iluminação, na verdade é a única linguagem correta para a iluminação. No momento em que você tenta trazê-la para a linguagem ela fica distorcida, e a distorção acontece em vários níveis.

Primeiro ela fica distorcida quando é arrastada para baixo, dos picos para os vales escuros da mente. A primeira distorção acontece aí. Quase noventa por cento de sua realidade é perdida. Então você fala, e a segunda distorção acontece porque o que você pode conceber no âmago mais profundo do seu coração é uma coisa, mas no momento em que você exprime isso em palavras, trata-se de outra coisa.(...)
E a terceira distorção acontece quando a mensagem é ouvida por uma outra pessoa, porque ela tem suas próprias idéias, seus próprios condicionamentos, seus próprios pensamentos, opiniões, filosofias, ideologias e preconceitos. Ela imediatamente interpretará de acordo consigo mesma, já não é mais a mesma coisa que começou no ponto culminante de sua consciência. Ela passou por tantas mudanças que é uma outra coisa. Assim aconteceu muitas vezes de os iluminados nunca falarem.(...)

Gautama Buda era um ser humano tão raro, tão culto e tão eloquente que se tivesse escolhido permanecer em silencio, o mundo perderia uma grande oportunidade. Os deuses desceram e pediram a Gautama Buda para falar: "Toda a existência está esperando, as árvores estão esperando, os vales estão esperando, as nuvens estão esperando, as montanhas estão esperando...não frustre a todos, não seja tão inclemente. Tenha misericórdia e fale". (...)

Gautama Buda fechou os olhos meditou por uns momentos e disse: "Não posso negar tal possibilidade. Isso não é muito, mas entendo que todos os meus argumentos são fracos diante da compaixão. Viverei pelo menos mais quarenta e dois anos e se eu puder tornar um único indivíduo iluminado, já me sentirei imensamente recompensado. Eu falarei." (...)

Ele falou por quarenta e dois anos e certamente, não uma, mas aproximadamente duas dúzias de pessoas se iluminaram. Essas pessoas foram as que aprenderam a arte de ouvir, a arte de ser silencioso. Elas não se iluminaram tanto pelo que Buda disse, mas porque puderam sentir o que Buda era, sua presença, sua vibração, seu silencio, sua profundidade, sua elevação.
Essas duas dúzias de pessoas presenciaram a beleza que as palavras assumem quando usadas por uma pessoa iluminada. Gestos comuns se tornam muito graciosos, olhos comuns se tornam muito belos, com muita profundidade e significado. A maneira de Buda caminhar tinha uma qualidade diferente, a maneira dele dormir tinha um significado diferente...Essas são as pessoas que tentaram entender não somente o que Buda dizia, mas o que ele estava sendo. Seu ser é a única linguagem autêntica."
Osho em Buda, sua vida e seus ensinamentos

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