26 de dezembro de 2013

SOU... ou sou? - Leo Hartong


"- Como posso cruzar para o outro lado?
- Já estás no outro lado!

Você já viu alguma vez, um concurso de esculturas na areia da praia? Os concursantes realizam impressionantes copias de estátuas antigas, ou criam seus próprios desenhos. Mas qualquer coisa que façam, é tudo areia! Quando as estátuas desmoronam, se dissolvem na praia. Da mesma maneira, todas as aparências que surgem na Consciência Pura, não são nada mais que Consciência Pura.

Da Consciência Pura, dessa Única Substância, surge a raiz de todo pensamento: EU SOU. Daí, mediante a identificação, surge o ego, aparecendo como "sou isso, sou assim" e portanto "não sou assim, não sou aquilo". 
Se cria uma divisão aparente do que é essencialmente UM, e todas as formas e seres acontecem para a mente.

O que não tem nome é o começo do céu e da terra.
O que tem nome é a mãe das dez mil coisas.
Como indica o próprio nome uni-verso, e como mantém todas as grandes tradições religiosas, não existe nada ( nenhuma coisa) fora de Deus. Tudo é Um e por tanto, a crença em um ego separado, mortal e limitado, pelo tempo que aparece no multi-verso, para a maioria de nós, no qual aparentemente nós vivemos, não passa de uma ilusão.

Quando nos apresentamos, normalmente começamos com um "eu sou" seguido do nosso nome e profissão. Porém, por mais que se pergunte, é impossível localizar este "eu". Mesmo que tenhamos um nome, não sou esse nome. O mesmo ocorre com as sensações, os pensamentos e as emoções. Não posso ser nada disso, pois se tratam de manifestações passageiras, e fugazes, ao contrário o sentido de "eu" permanece constante.

O "eu" que se pergunta, não pode investigar a si mesmo, da mesma maneira que o espelho não pode refletir a si próprio.

Este é o diálogo entre Bodhidharma e Hui-ko.

Hui-ko- Minha mente não está em paz. Por favor mestre, acalma minha mente.
Bodhidharma- Traga sua mente aqui e a acalmarei.
Hui-ko- Quando busco minha mente, não consigo encontrá-la!
Bodhidharma- Então, sua mente já está calma!

As sensações, as emoções e os pensamentos surgem simplesmente, sem que exista nenhum "eu" que tenha decidido tê-los. Quando observo o processo de meus pensamentos - que parecem estar sob o meu controle, assim como as sensações e as emoções - não consigo encontrar o pensador que decide ter um pensamento, antes que este surja. 
Claro que posso dizer: Sim sou eu que decido ter um pensamento, mas isto não é nada mais que um outro pensamento! 

O "eu" que pretende ser o proprietário do pensamento, não é nada mais que um componente desse mesmo pensamento. Na verdade, nem sequer posso saber qual será meu próximo pensamento, até que ele surja.(...)

A energia criadora universal é a que cria o pensamento. 
Segundo esta perspectiva, o cérebro-mente, é mais um receptor, que um gerador de pensamentos, algo comparado a um aparelho de televisão. Desmontar uma televisão, não vai revelar a fonte das imagens e dos sons. Da mesma forma, não podemos encontrar o pensador dos pensamentos dentro do corpo-mente.

A energia criadora - o Um, se manifesta como a ilusão de muitos - é a fonte de todas as coisas, incluindo os pensamentos. Esta energia não é só o pensamento "eu sou" mas a certeza absoluta do vasto "EU SOU". Esta certeza está contigo, sem que precises pensar nela. Se sustenta a si mesma e não se limita ao "eu sou" que forma as diversas categorias relativas, tais como "eu sou carpinteiro, irmão, pai, mãe, amigo, filha etc.." O sentido de identificação com essas categorias relativas e transitórias é um reflexo da criação do ego ilusório, por parte do EU universal.

Interpreta seu papel na comédia, mas não se identifiques com ele!

Ramana Maharshi, começou a realizar sua indagação baseada na pergunta "quem sou eu?". Quando te perguntam quem és, pode haver uma certa dúvida em relação ao quê responder; mas quando te perguntam, se você existe, não há nenhuma dúvida. A resposta é um clamoroso "sim claro que existo!". Quando, a resposta à primeira pergunta for tão clara quanto a resposta da segunda, teremos compreendido.

A compreensão reside no fato de que as duas perguntas tem na verdade a mesma resposta. Aquele que está seguro da sua existência - a profunda certeza de que EU SOU - é o que sois realmente. 

Em outras palavras: sou este conhecimento que sabe que EU SOU. 
Os hindus, dizem: Tat Tvam Asi ( Tu És Isso).

No antigo testamento, Deus disse: "Eu Sou o que Sou". Este inegável "Eu Sou" não é você, no sentido pessoal, mas o EU Universal. 

Ramana Maharshi chamou a este Eu de "EU-EU".

Esta compreensão me faz ver como os pensamentos aparecem para "minha" consciência, como nuvens em um céu azul e logo se dissolvem em si mesmo, sem deixar rastro algum. Na verdade não é necessário marcar os pensamentos que surgem na minha consciência; os pensamentos simplesmente se sucedem; todas as coisas são, sem que haja um "eu" controlando tudo, por detrás da tela.
O ego é tão desnecessário para o pensamento, ou para o funcionamento geral do organismo corpo-mente como a presença de Atlas sustentando o mundo. E da mesma maneira, que um dia os antigos gregos descobriram que na realidade nunca houve um titã chamado Atlas sustentando o mundo, você descobrirá que nunca houve realmente um ego sustentando a certeza absoluta do "Eu Sou".

Não se preocupem em aceitar estas palavras. Podem indagar por si mesmos e buscar em seu interior esse eu separado. Não vão encontrar a este suposto pensador de seus pensamentos, sujeito de seus sentimentos e autor de seus atos, a não ser em seu pensamento ou convenções gramaticais

Você é aquilo que está buscando a este "eu" e mesmo que a busca continue, este "eu" vai passar desapercebido.

Esta descoberta é uma revolução copernicana que tira o ego do centro do universo. Porém, não se pretende que este descobrimento seja um novo conceito ao qual iremos nos apegar. 

Ramana Maharshi comparava um conceito errado ao qual nos apegamos, a um espinho que temos cravado na pele. Podemos usar outro espinho ( outro conceito) para extrair o primeiro, mas o melhor é nos livrarmos dos dois. (...)

O conceito do EU SOU original, ( puro ser, sem dualidade ) é apenas um outro sinal apontando à Consciência Pura; e como a água que não necessita se molhar, a Consciência Pura não necessita o pensamento EU SOU. Ela é Isso.

"Eu Sou a luz que ilumina todas as coisas.
Eu Sou todas as coisas
Todas as coisas provém de mim
E todas voltam para mim
Corta um tronco e ali estou,
Levanta uma pedra e me encontrarás. 
-Evangelho de Tomé."

Leo Hartong em Despertar a la Verdad

Um comentário:

  1. Interessante este conceito de Ramana Maharashi, dos dois espinhos, traz atenção a um aspecto importante. Muito bom. Bjs.

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