13 de julho de 2012

Transcendência e auto-conhecimento...


"Sou um monge beneditino, e vocês podem me perguntar o que um monge faz aqui, fora do seu mosteiro.
A resposta que darei é que estou em meu mosteiro; tenho dois mosteiros, um intra muros, em Londres, e outro é fora das paredes, é uma comunidade que caracteriza pela prática do silencio e da meditação, que pratico há mais de trinta anos.

Quero hoje compartilhar com vocês algo da visão e da vida deste mosteiro sem paredes,e particularmente da prática da meditação.
A meditação tradicional que ensinamos e praticamos é muito simples. E sua maior dificuldade é essa simplicidade.Se fosse mais complicada seria mais fácil.Mas de fato é muito
simples, vem daí a sua exigência.

Trata-se de uma tradição que chega até nós pelas mãos dos padres e madres do deserto,os primeiros monges cristãos, que viveram no deserto do Egito, nos primeiros séculos depois de Cristo.Este movimento começou por leigos, já que eles não eram padres, mas leigos. São Bento não era um padre.
Era um movimento leigo, e um movimento fundador, original, e radical; uma tentativa radical de um grupo de cristãos, em viver o Evangelho através de uma experiência transformadora, que os iluminasse, os abalasse,os acordasse e os unisse verdadeiramente ao Cristo.

Um dos aspectos interessantes da tradição cristã do deserto, é a forma como comunica o seu saber.Não através de livros extensos e críticas teológicas, mas sobretudo pelo exemplo.
Os padres do deserto e madres do deserto, ensinavam através de seus exemplos.Seus ditos foram recolhidos, não sei se já leram, mas sugiro que leiam "Os ditos dos padres do deserto", um dos mais marcantes da tradição do deserto.
Trata-se de textos muito curtos, com ditos que umas vezes são divertidos,outras vezes são histórias zen. São decorrentes de um saber monástico que é experimental. Falam de vivências e não de teorias. Não discutem abstrações teológicas, mas abordam a oração como um processo de transformação verdadeira e profunda. Acima de tudo, falam da oração como um processo de auto-conhecimento.

Tem uma história que nos fala de um velho monge, que caminhava na beira de um rio com seu jovem discípulo, e o jovem lhe fazia muitas perguntas sobre o rio; queria saber seu nome, o seu curso, sua profundidade, a temperatura da água, enfim... O velho monge fica frustrado com tanta pergunta e em um momento e empurra o jovem no rio, e lhe diz:

"Agora já sabes. Já sabes tudo sobre o rio, não precisa ficar fazendo mais perguntas sobre ele." Claro que depois o monge o ajudou a sair do rio! (risos!!)

Isso é o tipo de sabedoria do espírito do deserto. Imersão. Mergulhe! Temos que imergir nas coisas, não apenas olhar ou pensar sobre as coisas.(...)
Um outro dito muito interessante dos padres e madres do deserto é o seguinte: "O auto-conhecimento é mais importante e uma aquisição mais valiosa do que a capacidade de fazer milagres."

Este auto conhecimento a que se referem, é o centro de toda espiritualidade. De fato, as pessoas nesta visão não são pessoas em uma caminhada espiritual, mas seres espirituais em uma jornada humana. Quando se pensa na diferença entre estas duas afirmações, mudamos nossa perspectiva. Essa jornada é o percurso do nosso auto-conhecimento, é apenas nos conhecendo tal como somos de fato.

O auto-conhecimento na tradição cristã sempre foi considerado como um fundamento indispensável.Temos que nos conhecer a nós mesmos, antes de conhecermos a Deus. Auto-conhecimento é a condição para o conhecimento de Deus.Portanto podemos ver como esta idéia de auto-conhecimento é central, não só para a tradição contemplativa cristã que é de onde eu vos falo, como para toda a tradição cristã.

Voltemos às palavras de Jesus,quando Ele nos diz que aqueles que o seguem, que são seus discípulos, devem ser capazes de deixar o seu ego para trás; - temos que nos perder para nos encontrar; e para nos perdermos temos que deixar todos os nossos apegos. Os elementos do auto-conhecimento são um certo tipo de auto-transcendência. Deixar o ego não significa algum tipo de auto-flagelamento ou a recusa ao prazer;mas sim, aderir verdadeiramente a uma experiência de auto-transcendência, que é capaz de nos levar além do ego ilusório, separado, até um nível profundo de consciência.

Portanto, além da auto-trancendência,há também uma experiência de pobreza, de desapego. Deixar todas os nossos apegos. Estes dois aspectos são essenciais para o nosso entendimento e para a prática da meditação.
Na meditação desviamos a atenção de nós próprios; Essa é a forma mais simples de nos transcendermos é deixar de pensar em nós mesmos. O que é muito difícil de se fazer, porque assim que começamos a pensar em qualquer coisa, daí já estamos pensando em nós mesmos.(...)

Portanto qualquer pensamento está de alguma maneira ligado a nós, enquanto centro da consciência.Isso explica porque na meditação fazemos algo radical e espantoso: Escolhemos deixar de centrar a atenção em nós próprios, paramos de pensar em nós.Isso é a essência da meditação."

2 comentários:

  1. Lilian, eu pratico meditação algum tempo, tem me ajudado tanto, hoje sou mais serena, vejo a vida de outra maneira,

    Beijos

    ResponderExcluir
  2. Cris querida, é verdade, a meditação nos transforma profundamente, desperta dimensões em nós que são belas e serenas...Obrigada por compartilhar!
    Grande beijo prá você também!

    ResponderExcluir

Related Posts with Thumbnails