9 de novembro de 2010

Transforme suas feridas...



"Todos já fomos feridos em nossa história de vida. Mas a minha experiência é: hoje em dia, muitas pessoas giram constantemente em torno de suas feridas.

Existe uma verdadeira mania de descobrir todas as feridas da infância para então poder remendá-las.
Atrás disso está a ideia da perfeição e do rendimento.

Achamos que deveríamos apagar todas as feridas com trabalho, deveríamos apagar em nós tudo o que torna doente. Mas esse caminho, leva a um beco sem saída. O verdadeiro caminho, consiste em nos reconciliarmos com nossas feridas. Para Hildegard von Bingen, a arte autogênese humana, consiste em serem nossas feridas transformadas em pérolas. Como se dá isso?

A transformação de minhas feridas em pérolas consiste para mim, em compreender minhas feridas como algo precioso. Lá onde estou ferido, também sou sensível para com as pessoas. Eu as entendo melhor. E mais: onde estou ferido entro em contato com o meu próprio coração, com meu verdadeiro ser.

Abandono a ilusão de ser absolutamente forte, sadio, perfeito. Assumo minha fragilidade. Isto me mantém vivo, e me torna mais humano, mais misericordioso e mais amável.

Lá onde estou ferido, lá também está meu tesouro.
Lá entro em contato com meu verdadeiro si-mesmo. Lá descubro também minhas capacidades.

Só o médico que já foi ferido pode curar, já diziam os antigos gregos.
A "transformação das feridas em pérolas" significa para mim, outra coisa mais: as feridas são um lugar da experiência de Deus.

Como compreender isso ? Tomo o exemplo do meu medo. Quando luto contra o medo, sou sempre perseguido por ele. Quando falo diante de Deus com meu medo e o admito, quando eu o interrogo sobre aquilo de que realmente tenho medo, qual é a verdadeira razão de meu medo, então penetro sempre mais fundo em meu medo; E com base em meu medo posso experimentar uma paz interior profunda. Com base no meu medo, posso sentir Deus, como aquele que me aceita com meu medo; Eu estou com meu medo em sua mão bondosa; Ou quando tomo minha suscetibilidade: eu a admito.

Apesar de meu caminho espiritual, ainda sou suscetível a críticas,a recusas, desconsiderações. Se eu me reconciliar com isso, minha suscetibilidade me levará cada vez mais fundo para dentro de meu coração ferido que anseia por amor, por aceitação incondicional.
Presumo então, no fundo do meu coração ferido, alguém que estende sobre mim, sua mão que me toca suavemente e me diz:

"Estou com você. Você não precisa ser tão forte como gostaria. Está bom assim. Você é precioso para mim exatamente como esta pessoa que você é. É exatamente assim que o amo."
Ansel Grün em O Livro da Arte de Viver.

Este belo texto de Anselm Grün, nos mostra aspectos bem interessantes.
A super valorização da dor, do sofrimento, do que já foi, do que já passou...enfim...uma mentalidade do passado...

Nossa vida é feita de momentos luminosos, de momentos sombrios...mas a vida é assim...luz e sombra, picos e vales...uma situação não é inteira se não contiver os dois fatores conjuntamente. Vivemos em uma dimensão onde o calor existe por causa do frio, o dia em função da noite, a alegria em relação a tristeza e assim vai...

O que podemos em relação a isso? Aceitar e transcender. Acolher e tirar lições.
O amor acolhe cada situação que a vida nos traz. Não temos controle, não estamos no comando, somos filhos da vida, a existência se manifesta como quiser. Nos resta acolher a cada instante, com a sua total unicidade e autenticidade, e de acordo com a consciência que manifestarmos naquele momento, dizer sim, tirar lições para nossa vida, e ir em frente...

Se ficamos remoendo, revivendo feridas, simplesmente por revive-las, para que nos sintamos mais adequados, nesta sociedade onde a felicidade parece incomodar, estamos no fundo nos auto-sabotando, e virando as costas ao momento presente, à pura presença, mais uma vez...

A dor acontece, é inevitável, mas o sofrimento é opcional...como já dizia o sábio...
Se ficamos presos as feridas do passado, é sinal que estamos atualizando mais e mais dor...isso não leva a lugar algum.

É importante que olhemos a vida com olhos abertos e coração acolhedor. Cada momento é uma obra divina da existência...seja ele qual for...e se nos acontece é para que cresçamos com aquilo.
Acolher a obra divina, sem julgamentos, e retirar lições e aprendizados, isso sim é a verdadeira oração...é transformar cada ferida numa pérola preciosa...e amorosa...
Amor
Lilian

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