14 de junho de 2013

O Ego em ação - Adyashanti 1/2



"O bode expiatório da espiritualidade é o ego. 

Já que não há mesmo ninguém para culparmos por tudo que acontece em nossas vidas, fabricamos esta ideia chamada ego para levar a culpa. Isso provoca muita confusão, pois o ego na verdade não existe. 
Ele é simplesmente uma ideia, o rótulo de um movimento ao qual apegamos o nosso sentido de eu.

Quando consideramos que o ego é apenas uma ideia que não existe realmente, podemos ver que muita gente espiritualizada o culpa injustamente por todas as coisas das quais acreditamos que devemos nos livrar. 

As pessoas entendem equivocadamente que algo que surge dentro delas ­ — seja um pensamento, sentimento, predisposição ou um momento de sofrimento – é uma prova do ego, e acham que só porque aquilo surgiu, o ego existe. Acham que têm um ego, porque todas essas coisas apontam para ele. Só o que sempre encontramos é essa prova ou evidência da existência do ego, mas nunca conseguimos encontrar a própria coisa em si.

Quando peço a alguém para procurar o ego, a pessoa realmente não consegue encontrá-lo. Ele não está lá. Um pensamento ou emoção de raiva desencadeia a crença: “Ah, tenho que me livrar disto — isto é o meu ego”. É como se tudo que acontece ao ser humano, especialmente a um ser humano interessado em se espiritualizar, se acostumasse como prova da existência de um ego que 
precisa ser aniquilado. E, todavia, ninguém consegue encontrá-lo. Ainda vou ter que pedir a alguém que me mostre o ego. Já vi muitos pensamentos, emoções e sentimentos. Já observei expressões de raiva, alegria, depressão e êxtase, mas ainda vou ter que pedir a alguém que me apresente o ego.
Muitas pessoas me apresentam a convicção de que, como existem todas essas coisas, deve haver em si mesmas alguém ou alguma coisa, um bode expiatório, para culpar. Esse é o entendimento comum em relação ao ego. Mas isso não é ego. As coisas às vezes são tão simples quanto parecem. Às vezes um pensamento é só um pensamento, um sentimento é só um sentimento, e uma ação é apenas uma ação, sem ego em si. Ora, o ego que existe, se é que sequer existe um ego, é o pensamento de que existe o ego. Mas não há uma evidência sequer da existência desse ego. 

Tudo simplesmente está surgindo espontaneamente e, se houver acaso um ego, ele será especificamente este movimento da mente que diz: “É meu”.
Ora, geralmente este pensamento “É meu” segue o surgimento de um pensamento ou emoção. Poderia ser “Estou confuso” – isso é meu” ou “Sinto inveja – isso é meu”, ou em resposta a qualquer outra experiência que estiver surgindo: “Isso me pertence”. Pensa-se que o ego estivesse presente e tivesse causado esse pensamento, sentimento ou confusão. Porém, sempre que imediatamente retrocedemos para encontrar o ego, descobrimos que ele não estava lá antes do pensamento, mas viera em seguida. É uma interpretação de um fato, ou de um dado pensamento ou emoção. É a suposição pós-factual de que “é meu”. O ego também é a interpretação pós-factual que diz: “Isso não é meu”, a rejeição de um pensamento ou sentimento. É fácil entender que tal posição implica que haja alguém ali a quem aquilo não pertence.

Esse é o mundo da dualidade. 
É o meu pensamento, a minha confusão ou o que quer que seja, ou não é o meu pensamento, não é a minha confusão, não é meu. Tanto uma como a outra são movimentos ou interpretações do que é. O ego é apenas esta interpretação, este movimento da mente, e é por isso que ninguém pode encontrá-lo. Ele é como um fantasma. É apenas um movimento mental particularmente condicionado.

Desde tenra infância, recebemos mensagens como “Você é bonito”, “Você é inteligente”, “Você tirou nota boa, portanto você é bom”, “Você não tirou nota boa, portanto você não é bom”. Logo a criança começa a acreditar nisso, a sentir assim, a apropriar-se dessa essência emocional como “eu”. Da mesma forma, alguém pode ter um pensamento e imediatamente começar a sentir esse pensamento. Se a pessoa pensar num alegre dia de sol, logo seu corpo começará a entrar em sintonia com isso, sentindo algo que não existe. 

Portanto, é claro, isso fica um tanto mais difícil quando se diz a alguém para livrar-se do ego, pois quem é que vai se livrar do ego? O que é que tenta livrar-se do ego? É assim que ele se mantém, achando que tem que fazer alguma coisa consigo mesmo.

O ego é um movimento. É um verbo. Não é algo estático. É o movimento mental pós-factual que está sempre se tornando. Em outras palavras, os egos estão sempre no caminho. Estão no caminho psicológico, no caminho espiritual, no caminho de ganhar mais dinheiro ou um carro melhor. O sentido de “eu” está sempre se tornando, sempre se movendo, sempre obtendo. Ou então está fazendo o contrário – retirando-se, rejeitando, negando. 

Assim, a fim de que esse verbo siga andando, tem que haver movimento. Temos que estar avançando ou recuando, aproximando-nos ou afastando-nos. Temos que ter alguém para culparmos, e geralmente a nós mesmos. Temos que estar chegando a algum lugar, pois, senão, não estaremos nos tornando. Portanto, o verbo – vamos chamá-lo de “egoar” – não estará funcionando, se não estivermos nos tornando. Tão logo o verbo pára, já não é mais um verbo. 

Tão logo você pare de correr, não há mais algo que se chame correr – foi-se; nada está acontecendo. Este sentido de ego tem que estar em movimento, 
porque, assim que ele pára, desaparece, tal como quando seus pés param, desaparece o correr. 

Quando realmente admitimos e começamos a entender que não há um ego, somente “egoar”, daí começamos a ver o ego pelo que ele realmente é. Isso produz uma parada natural da perseguição ou evitação de alguma coisa. Esta parada precisa acontecer de uma forma suave e muito natural, porque, se estivermos tentando parar, então isso novamente será movimento. Enquanto tentamos fazer o que achamos ser a coisa espiritual certa para nos livrar do ego, nós o perpetuamos. O fato de percebermos que isso é mais um pouco do mesmo “egoar” nos permitirá parar sem tentarmos.

Você poderia topar com cem carvalhos e cada um teria uma personalidade, mas nenhum ego. Portanto, a cessação desse verbo chamado ego nada tem a ver com a cessação da personalidade. Não tem a ver com nada para o qual pudéssemos apontar com o dedo: nem para o pensamento, nem para o sentimento, nem para o ego. Se tivéssemos que parar, ou o mundo tivesse que parar a fim de sermos livres, estaríamos metidos numa grande enrascada. 

É o movimento de tornar-se, o movimento em direção a alguma coisa ou de afastamento de alguma coisa, que pára.Começa a abrir-se uma diferente dimensão do ser quando se permite que este verbo ego se esgote. Só pela observação, podemos começar a ver que nada que surge tem uma natureza egóica ou de “eu”. Um pensamento que surge é só um pensamento que surge. Se surge um sentimento, ele não tem um “eu” ou uma natureza egóica. Se surge confusão, não há um “eu” ou natureza egóica no surgimento. Só por observarmos, percebemos que tudo surge espontaneamente, e nada tem em si um “eu” ou uma natureza egóica. 

A natureza egóica só aparece numa reflexão posterior.
Tão logo se dê crédito a essa reflexão posterior, então teremos o acontecimento de uma visão de um mudo inteiro: “Eu estou com raiva; estou confuso; estou ansioso; estou tão feliz; estou deprimido; não sou iluminado” ou, pior ainda, “Eu sou iluminado”. De repente esta crença no pensamento-eu dá cor a tudo que vemos, tudo que fazemos e a cada experiência que acontece. As pessoas acham que a espiritualidade é um estado alterado, mas essa ilusão é o estado alterado. 
A espiritualidade trata de despertar, não de estados." [ continua...]
Adyashanti em Satsang
Segunda parte clique aqui

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