2 de março de 2016

Dimensões da Consciência 2/3 - Osho


[continuação...]

"O primeiro estado é sushupti; Nós o chamamos de a "primeira dimensão". É não divisibilidade sem sonho; é a unidade inconsciente, é a ignorância, mas muito gloriosa. Mas a ignorância também é inconsciente. Só de manha, quando você acorda novamente, começa a sentir que dormiu bem à noite, que esteve em alguma terra distante, que está rejuvenescido, sentindo-se renovado, jovem, vivo. Mas só de manhã - não exatamente enquanto está dormindo, apenas depois. Permanece apenas uma fragrância na memória. Ela o lembra de que você esteve em alguma profundeza interior, mas onde? O quê? Você não consegue decifrar, não consegue explicar; é só uma vaga lembrança, uma leve recordação de um lugar que você visitou em um bom espaço. Não há ego ainda; por isso, não há amargura - pois a amargura não é possível sem o ego.

Esse é o estado em que as rochas e as montanhas e os rios e as árvores existem. É por isso que as árvores são tão belas - uma glória inconsciente as cerca. É por isso que as montanhas são são silenciosas; estão em sushupti em sono profundo contínuo. É por isso que quando você vai ao Himalaia sente um silencio eterno - um silencio virgem. Ninguém até hoje foi capaz de perturbar esse silencio. Pense nas árvores, e começará a se sentir fluindo, Toda a natureza existe no primeiro estado; por isso a natureza é tão simples.

A segunda dimensão é a do sonho - que Patanjali chama de swabha. O primeiro distúrbio no sono é o sonho. Agora você não é mais um; a segunda dimensão chegou. Imagens começam a flutuar em você; o começo do mundo. Agora você é dois: o sonho e o sonhador. Agora você está vendo o sonho e você é o sonho também. Agora você está dividido. O silencio do sono profundo não existe mais, entrou o distúrbio, porque houve a divisão.

Divisão, dualidade, distúrbio - esse é o significado do sonho. Embora a dualidade ainda seja inconsciente, ele existe. Mas não de forma consciente - você não sabe a respeito dela. O tumulto está lá fora, o mundo nasceu, mas as coisas ainda estão indefinidas, estão saindo da fumaça; as coisas estão tomando forma. A forma ainda não é clara, ainda não é concreta, mas por causa do dualismo - embora seja inconsciente - entrou a amargura. O pesadelo não está longe. O sonho virará um pesadelo.

É aí que vivem os animais e os pássaros. Eles também possuem uma beleza, porque estão muito próximos do sushupti. Os pássaros numa árvore são apenas sonhos pousados em sono. Os pássaros fazendo seus ninhos numa árvore, são apenas sonhos fazendo seus ninhos em sono. Há uma espécie de afinidade entre os pássaros e as árvores. Se as árvores desaparecerem, os pássaros desaparecerão também; e se os pássaros desaparecerem, as árvores não serão mais tão bonitas. Há um profundo relacionamento; é uma família. (...) Os pássaros e os animais não precisam de psiquiatras; não precisam de um Freud, um Jung, um Adler. São totalmente saudáveis. (...)
Na natureza eles são muito quietos, felizes, saudáveis, mas essa saúde também é inconsciente - eles não sabem o que está acontecendo.

Esse é o segundo estado: quando você sonha. Essa é a sua segunda dimensão. A primeira, sono sem sonho, sushupti - unidimensional simples; não há o "outro". Segunda dimensão sonho, swabha - bidimensional; o sonhador e o sonhado, o conteúdo e a consciência - surge a divisão; o que olha e o que é olhado, o observador e o observado. Entra a dualidade. Essa é a segunda dimensão.

Na primeira dimensão só existe o tempo presente. O sono não conhece o passado nem o futuro. Claro que como não conhece o passado e o futuro, tampouco pode conhecer o presente, porque o presente só existe no meio. Você tem de estar ciente do passado e do futuro, só assim pode estar ciente do presente. Como não existe passado, nem futuro, o sono só existe no presente. É puro presente, mas inconsciente.
Com o sonho, entra a divisão. Com o sonho, o passado se torna muito, muito importante. O sonho é orientado pelo passado; todos os sonhos vêm do passado. Eles ainda são fragmentos do passado flutuando; o pó do passado que ainda não se assentou.(...)

Tudo o que você sonha tem a ver com seu passado(...) Está na sua mente. Talvez você nunca tenha sido tão sincero em seu estado de vigília quanto no sonho. Todos os sonhos flutuam a partir do passado. Com o sonho, o passado se torna essencial. Assim o presente está aí, o passado também.
Com a terceira dimensão, o estado de vigília que Patanjali chama de jagrut entra a multiplicidade. A primeira é a unidade, a segunda é a dualidade, a terceira é a multiplicidade. Surge grande complexidade. O mundo inteiro nasce. No sono, você vai fundo dentro de si mesmo. No sonho, já não vai mais tão fundo, mas no entanto, não está fora - está bem no meio, no limiar. Com a consciência em vigília, você está fora de si mesmo, entra no mundo.(...)

Em sono profundo você está dentro. Na vigília você está fora. No sonho você está no meio, pairando, ainda não decidiu aonde ir, indeciso, em dúvida, incerto. No estado de vigília entra o ego. No estado de sono, há apenas fragmentos rudimentares do ego despertando, mas eles se assentam no terceiro. O ego se torna o fenômeno mais concreto, mais sólido, mais decisivo. E então, tudo o que você fizer, fará por causa do ego.

O terceiro estado traz um pouco de consciência - só 1%, não muito, uma consciência titubeante, momentânea. O primeiro estado era absolutamente inconsciente; o segundo era o inconsciente perturbado; o terceiro é o primeiro vislumbre de consciência. E por causa disso - o vislumbre momentâneo da consciência - esse 1% que entra cria o ego. Agora, chega também o futuro.

Primeiro há somente o presente inconsciente; depois há o passado inconsciente; agora entra o futuro. Passado, presente, futuro e toda complexidade do tempo giram em torno de você. Esse é o estado em que as pessoas ficam estagnadas. Se você construir sua casa com essas três dimensões, estará construindo-a sobre a areia, pois todo o seu esforço será inconsciente.

Fazer algo inconsciente é fútil - é como atirar flechas no escuro, sem ver o alvo. Não produzirá grandes resultados. Primeiro, a luz é necessária. O alvo tem de ser procurado. E é necessário luz suficiente para você caminhar em direção ao alvo com consciência. Isso só é possível quando a quarta dimensão começa a funcionar. Raramente acontece, mas quando acontece, nasce o significado, o logos.
Você terá uma vida sem sentido se viver apenas com essas três; terá uma vida sem sentido porque não será capaz de criar a si mesmo. Como poderá criar, em meio a tanta inconsciência?

A quarta dimensão é a da percepção, do testemunho - que Patanjali chama de turiya. (...) Essa quarta dimensão tem de ser compreendida o mais profundamente possível, porque essa é a meta. É pura consciência, simplicidade novamente. A primeira dimensão é simples, mas inconsciente; a quarta é simples, mas consciente. Unidade de novo, glória de novo - com uma única diferença: agora é tudo consciente, a luz interior queima, acesa. Você está plenamente alerta. Não é uma noite escura dentro de você, mas uma noite de lua cheia. É isso que significa iluminação: iluminação interior.

Novamente só resta um tempo - o presente, mas agora é o presente consciente. O passado não paira mais em volta. Um homem consciente não pode se mover no passado, porque este não existe mais. Um homem consciente não pode se mover no futuro, porque ele ainda não aconteceu. Um homem consciente vive no presente aqui e agora. O aqui é seu único espaço e o agora é seu único tempo. E porque está só no aqui e agora o tempo como tempo em si desaparece e nasce a eternidade, a atemporalidade. E quando o indivíduo está totalmente alerta, o ego não pode existir, pois ele é uma sombra projetada na inconsciência. Quando tudo está iluminado, o ego não pode existir. Você poderá ver a falsidade dele, a condição de pseudo dele. E nesse ato de ver, ele desaparece." [continua...]

Osho em A flauta nos lábios de Deus

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