5 de setembro de 2014

Moksha - Swami Dayananda


"Qual é a diferença entre conhecimento do Ser e realização do Ser?

De acordo com o moderno Vedanta, o conhecimento do Ser é intelectual e a realização do Ser é experiencial, e devido a esta diferença o estudo da shastra ( escritura ) está dirigido ao conhecimento do Ser, que entretanto se converterá em meios para a realização do Ser. 

Quando o shruti ( o texto revelado ) é o meio de conhecimento para reconhecer o Ser que está sempre presente, como pode haver um conhecimento indireto de atma que se converta em realização direta por meio de algum método único? Shravanam ( escutar ) mananam ( refletir ) nididhyasanam ( contemplar) se prescrevem no texto revelado somente para a realização do Ser.

A confusão de se fazer distinção entre o conhecimento e a realização vem de não reconhecer a presença invariável do atman em todas as situações e de não compreender o texto revelado como meio para reconhecer essência de atma. Essa é a razão por que muitas vezes escutamos que só obteremos do texto revelado o conhecimento intelectual. Todas as formas de conhecimento acontecem no intelecto. Não há tal coisa como conhecimento intelectual. Pode haver dois tipos de conhecimento; um é o direto e o outro é o indireto. Quando o atma está invariavelmente presente o conhecimento de atma só pode ser direto. 

A eliminação dos pensamentos não é conhecimento; não é auto-descobrimento. Os pensamentos não escondem o atma. Os pensamentos vêem, Eu Sou. Os pensamentos se vão, Eu Sou. Compare isto com: a serpente é, a corda é; a serpente não é; a corda é. Assim que existe um erro de comparar os pensamentos com o 'eu'. Se não é quem sou, este erro original nunca se corrige mediante a eliminação dos pensamentos. O Vedanta não aceita os pensamentos por causa do sofrimento. O erro de tomar os pensamentos como o atma é a causa do sofrimento.(...)

O sofrimento é o resultado de uma confusão entre o real e o aparente. Uma onda não está separada ou é independente da água, mas a água não depende da onda. Assim também é um pensamento, ele não é independente de atma, consciência, mas atma é independente dele. O erro de tomar o pensamento como o atma é obviamente a causa do sofrimento. Inclusive se o pensamento é um problema, a solução de "livrar-se dos pensamentos" é um erro. O pensamento "eu sou pequeno" é um problema. Portanto, indague se és realmente pequeno. Confundir o pensamento pelo 'eu' é o problema e a solução é o conhecimento do "Eu Sou real, os pensamentos são aparentes".

A realidade dada a mente tem que ser destruída mediante o conhecimento do atma invariável, manifesto em todos os pensamentos. O Atma não está oculto dos pensamentos. A onda não oculta a água; na mesma onda vemos água. A onda não necessita se diminuir para que vejamos a água; na mesma onda vemos a água. Não há ocultação em absoluto. O Atma não pode ser ocultado por nada, só mesmo a ignorância. Sempre é manifesto. EU SOU é a consciência livre de pensamentos, apesar dos pesares. Este é o darshana ( visão divina) do ser único. O que é real é sempre uni (único), só o uno é real. Este conhecimento destrói a velha mente tonta que se mantém contra mim. O pensamento continua mas se reconheço ele como mithya ( aparente ), de modo que é tão bom como não existente. Nossa sombra não é um problema. Mithya não é um problema - é útil. a mente é útil, e isso é tudo.

A palavra "bodha" significa conhecimento, o reconhecimento que precisa ter lugar na mente, não em outra parte. 
O atma está sempre presente e sempre é o mesmo, uno e não-dual, saiba você ou não, assim como o cristal de açúcar é doce, saiba você ou não. 

O atma é tudo e ao mesmo tempo está livre de tudo. A ignorância disso tem que desaparecer. A ignorância é eliminada só pelo conhecimento. A ignorância da onda é eliminada só mediante o conhecimento da onda. Para conhecermos temos que empregar o pramana ( meio de conhecimento ) apropriado.

O pramana aqui está na forma de palavras e sua atuação não está em suas mãos. Quando estás atuando com os pranamas da percepção e a inferência, és o conhecedor. Mas as palavras vem do mestre. Mesmo que as escute não é percepção. Quando se pronuncia a palavra 'manga' você vê uma manga em sua mente porque é uma coisa conhecida. Quando digo 'eterno' não é um objeto visto e por tanto não tem nenhum sentido. "O atma é eterno", é algo que deve ser compreendido.

Não se trata de saber que o atma é eterno, e depois tenha que realizá-lo. Se o que é eterno não é percebido não se compreende a eternidade. Por isso quando alguém diz: Swamiji entendo muito claramente que o atma é eterno, mas como chegar a realização? Tenho que lhe dizer o seguinte: Em primeiro lugar se dê conta do seu erro; que é a única realização que necessitas. Você ouviu a palavra eterno mas não a compreendeu. Só crê que compreendeu, mas isso não é certo. Do mesmo modo, palavras como como consciência, infinito, divino, supremo, espiritual, quando não se compreendem corretamente não tem nenhum sentido."
Isso é um problema realmente. Na atuação da autoridade dos Vedas ( shabda-pramana), as palavras são manejadas pelo mestre e essas palavras me fazem ver que sou livre.

O atma é evidente por si mesmo, mas o Brahman não é conhecido. Para conhecê-lo, a percepção e a inferência não servem de nada. Temos que utilizar a palavra falada de fora, ( shabda ). Quando se está escutando as palavras, então és um conhecedor por seu nome. O próprio conhecedor escuta: "Tú és Brahman". Isto significa que o conhecedor tem que renunciar ao status: "Eu sou um conhecedor". Este conhecedor, que se identificou com o complexo corpo-mente-sensação se dissolve a si mesmo como resultado do conhecimento.

Em todas as demais atuações do pranama, o conhecedor segue sendo o sujeito relacionado com o objeto conhecido. Esta é a diferença entre shabda-pranama que revela que de fato "Eu Sou Brahman" e todos os demais pranamas. Na atuação de todos os outros meios de conhecimento, como a percepção, a inferência, a presunção etc.. o conhecedor se mantém e desfruta do pranama-phala, o resultado da atuação do pranama. Aqui o conhecedor se mantém relaxado, exposto ao ensinamento que esclarece que o conhecedor é e sempre foi o próprio Brahman. Portanto, este pranama é uma coisa completamente diferente. Tem que ser manejado. Por isso a palavra falada é importante aqui. Deve-se ter uma disposição aberta " Estou deixando que o pranama atue sobre mim". Assim como permite-se que um cirurgião te opere porque tens fé ( shraddha ) nele, assim também necessitas de shraddha para permitir que o pranama atue sobre você.

O atma é o vidente por si mesmo, e a fonte que nunca cessa. Nem sequer pisca. Sempre permanece como testemunho. Mas é um testemunho somente com referência ao que se vê. Por si mesmo é pura consciência. Este atma auto-consciente é Brahman. Este é o ensinamento. Devido a este ensinamento, uma mudança ( vritti ) tem lugar na mente, que destrói a ignorância e ela mesma desaparece. Este vritti: "Tudo que existe sou eu mesmo", é chamado de atmaikya-bodha ou aparoksha-jnana.(...) Sem este conhecimento não se obtém a liberdade.

Mas, porque insistir em que unicamente atmaikya-bodha te dará moksha? Existem muitas pessoas e seus gostos são muito diferentes; portanto, devem haver muitos caminhos disponíveis para se obter moksha.
Para alguns a adoração será o suficientemente boa; para outros, o pranayama; para alguns será outra coisa. Existem muitos métodos, por que não seguir só um deles? É claro que podes escolher. Entre estes métodos estão disponíveis muitas outras opções. Mas para moksha não há opção, porque o problema é a ignorância e nenhuma outra coisa resolverá a ignorância exceto o conhecimento. "
Swami Dayananda em Vivekacudamani, talks on 108 selected verses.
Fonte aqui

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