16 de agosto de 2014

Conheça o conhecedor - Nisargadatta


"Antes que você possa conhecer qualquer coisa diretamente, não-verbalmente, você deve conhecer o conhecedor [aquele que conhece]. Até aqui, você achava que a mente era o conhecedor, mas não é assim. A mente o obstrui com imagens e idéias, as quais deixam cicatrizes na memória. Você toma a lembrança por conhecimento. O verdadeiro conhecimento é sempre fresco, novo, inesperado. Ele brota de dentro. Quando você sabe quem você é, você também é o que conhece. Entre o saber e o ser, não há diferença.(...)

Além do mais, quem é o Guru? É aquele que conhece o estado no qual não há nem mundo nem o pensamento sobre ele [o mundo], ele [o Guru] é o Mestre Supremo. Encontrá-lo significa alcançar o estado no qual a imaginação não é mais tomada por realidade, pela verdade, pelo que existe [pelo que é]. Ele é um realista no mais alto sentido do termo. Ele não pode e não discute com a mente e suas ilusões. Ele vem para lhe levar ao real; não espere dele nada além disso. O Guru que você tem em mente, aquele que lhe dá informações e instruções, não é o Guru real. O guru real é aquele que conhece o real, além do glamour das aparências. O que existe para você não existe para ele. O que você toma por certo, ele nega absolutamente. Ele quer que você veja a si mesmo como ele o vê. Aí [então] você não precisará de um guru para obedecer e seguir, porque você obedecerá e seguirá sua própria realidade.(...)

Seu corpo dura pouco no tempo. Tempo e espaço estão apenas na mente. Você não está preso. Apenas compreenda a si próprio - isso, em si mesmo, é a eternidade.(...)

Aquiete-se. Faça seu trabalho no mundo, mas interiormente aquiete-se. Então, tudo virá a você. Não confie em seu trabalho para sua realização. Ele pode trazer lucros para os outros, mas não para você. Sua esperança jaz em fazer silêncio na sua mente e no seu coração. Pessoas realizadas são muito quietas.(...)

Como em um cinema tudo é luz, assim também a Consciência se torna o vasto mundo. Olhe atentamente e você verá que todos os nomes [palavras] e formas [geométricas ou não] são apenas ondas transitórias no oceano da Consciência, [e] que apenas a Consciência pode ser dita como existindo, não suas transformações. Na imensidão da Consciência, uma luz aparece, um pequeno ponto se move rapidamente e traça formas, pensamentos e sentimentos, conceitos e idéias, como uma pena escrevendo em um papel. 


A tinta que deixa o traço, é a memória. Você é esse pequeno ponto, e por seu movimento o mundo é sempre recriado. Pare de se mover e não haverá mundo. Olhe para dentro e você descobrirá que o ponto de luz é o reflexo da imensidão da luz no corpo, aparecendo como o sentimento de 'Eu Sou'. Há apenas luz, tudo o mais apenas aparece. Para a mente, ela [essa luz] aparece como escuridão. Ela pode ser conhecida apenas pelos seus reflexos. Tudo é visto à luz do dia, exceto a luz do dia em si mesma. A Suprema Ciência [a união definitiva entre criatura e criador] é ser o ponto de luz traçando o mundo. A luz, em si mesma, é a própria união. Mas para que servem os nomes, se a realidade está tão perto?(...)

Eu Sou o que Eu Sou, nem com forma nem sem forma, nem consciente nem inconsciente. Eu Sou/Estou fora de todas essa categorias. Você não pode me encontrar pela simples negação. Eu Sou tanto tudo como nada. Nem ambos e nem nenhum dos dois. Estas distinções se aplicam ao Senhor do universo, não a mim. Eu Sou/Estou completo e perfeito. Eu Sou a existência do existir, o Saber do saber, a Plenitude da felicidade.(...)

Nada o impede de se tornar um sábio aqui e agora, exceto o medo. Você tem medo de ser impessoal, do Ser impessoal. É tudo muito simples. Dê as costas aos seus desejos e medos, dos pensamentos que eles criam, e você estará imediatamente no seu estado natural.(...)

Eu existo além do tempo. Não importa quão longa uma vida possa ser, é apenas um momento e um sonho. Da mesma maneira, eu existo além de todos os atributos. Eles aparecem e desaparecem na minha luz, mas não podem me descrever. O universo é todo nomes e formas, baseados em qualidades e diferenças, enquanto eu existo além. O mundo está lá porque eu sou, mas eu não sou o mundo. Eu sei que há um mundo, o qual inclui este corpo e esta mente, mas eu não os considero mais 'meus' do que outros corpos e mentes. Eles estão ali, no tempo e no espaço, mas eu sou intemporal e sem medidas.(...)

Primeiro realize seu próprio ser. Isto é fácil, porque o sentimento de 'Eu Sou' está sempre com você. Então, encontre a si mesmo como o conhecedor [aquele que conhece], separado do conhecido. Uma vez que você [re]conhece a si mesmo como puro Ser, o êxtase da liberdade é seu.(...)

O valor definitivo do corpo é que ele serve para descobrir o corpo cósmico, o qual é o universo na sua totalidade. Na medida em que você se descobre se manifestando, você continua a descobrir que é sempre mais do que tinha imaginado.(...)

Aquele que acredita que nasceu tem muito medo da morte. Por outro lado, para aquele que conhece a si mesmo verdadeiramente, a morte é um evento feliz.(...)

Uma vez que você compreenda que a estrada é a meta, e que você está sempre na estrada, não para alcançar a meta, mas para aproveitar sua beleza e sua sabedoria, a vida cessa de ser uma tarefa e se torna natural e simples, um êxtase em si mesmo.(...)

Uma coisa é bem clara para mim: tudo o que vive e se move tem seu Ser na Consciência, e Eu Sou/Estou dentro e além da Consciência. Eu Sou/Estou dentro como testemunha. Eu Sou/Estou além como Ser.(...)

Dor e prazer sempre andam juntos. Liberdade de um significa liberdade de ambos. Se você não se importa com o prazer, não terá medo da dor. Mas há a felicidade, a qual não é nenhum dos dois, a qual está completamente além.(...)

Identificar-se com o particular é todo o pecado que existe. O impessoal é real, o pessoal aparece e desaparece. 'Eu Sou' é o Ser impessoal, 'Eu sou isto' é a pessoa. A pessoa é relativa, e o puro Ser [é] fundamental.(...)

Você fala sobre o fluxo do tempo como se você fosse estacionário. Mas os eventos que você testemunhou ontem, alguém mais pode ver amanhã. É você que está se movendo e não o tempo. Pare de se mover e o tempo cessa. Passado e futuro se fundem em no eterno agora. (...)

Enquanto se for consciente, haverá dor e prazer. Você não pode lutar contra a dor e o prazer no nível da Consciência. Para ir além deles, você tem de ir além da Consciência, o que é possível apenas quando você olha a Consciência como algo que acontece a você, e não em você, como algo externo, alienígena, super-imposto. Então, subitamente, você está livre da Consciência, realmente sozinho, sem nada se intrometendo. E esse é o seu estado verdadeiro. A Consciência é uma irritação que faz você se coçar. Claro, você não pode escapar da Consciência , porque o próprio [ato de] escapar está dentro da Consciência. Mas se você aprender a olhar para a sua Consciência como um tipo de febre, pessoal e particular, na qual você está preso como um pintinho no seu ovo, dessa atitude virá a crise, a qual quebrará o ovo.(...)

Não tente ser feliz, ao invés disso, questione a sua própria busca por bem-aventurança. É porque você não é feliz que você quer ser feliz. Descubra porque você é infeliz. Porque você não é feliz, você busca a bem-aventurança no prazer; o prazer traz a dor, e por isso você o chama de mundano; você então anseia por algum outro prazer, sem dor, ao qual chama de divino. Na realidade, o prazer é apenas uma folga da dor.(...)

A Consciência em você e a Consciência em mim, aparentemente duas, mas realmente uma, buscam a unidade e isso é Amor.(...)

Aquilo que você é, seu verdadeiro Self, você o ama, e o que quer que você faça, você faz para sua própria felicidade. Encontrar seu verdadeiro Self, conhecê-lo, amá-lo é sua urgência básica. Seja verdadeiro com você mesmo, ame a si mesmo absolutamente. Não finja que você ama os outros como a si mesmo. Você não pode amar o outro a menos que você tenha compreendido que ele [o outro] é um com você. Não finja ser o que você não é, não se recuse a ser o que você é. O seu amor pelos outros é o resultado do seu auto-conhecimento, não a sua causa. Sem a auto- realização, nenhuma virtude é genuína. Quando você sabe além de qualquer dúvida que a mesma vida flui através de tudo que é, e que você é essa vida, você irá amar tudo natural e espontaneamente. Quando você compreende a profundidade e a amplitude do seu amor por você mesmo, você sabe que cada ser vivo e o universo inteiro estão incluídos no seu afeto. Mas quando você olha para qualquer coisa como separada de você, você não pode amá-la porque você a teme. A alienação causa medo, e o medo aumenta a alienação. É um circulo vicioso. Apenas a auto-realização pode quebrá-lo.(...)

Você reconhecerá que voltou ao seu estado natural pela completa ausência de todo desejo e medo. Além do mais, na raiz de todo desejo e medo, está o sentimento de não ser o que você é. Assim como uma junta deslocada dói enquanto está fora do lugar, e é esquecida tão logo volte à sua posição correta, assim toda auto-preocupação é [também] um sintoma de uma distorção mental, que desaparece tão logo se volte ao estado natural.(...)

O que é religião? Uma nuvem no céu. Eu vivo no céu, não nas nuvens, as quais tantas palavras mantém unidas. Tire o palavreado, e o que permanece? A verdade permanece."
Nisargadatta Maharaj em I Am That

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