8 de fevereiro de 2015

Sobre a auto-indagação - Gangaji


"Auto indagação não é uma pergunta fixa, Quem sou eu.
Auto indagação é um modo de vida. É a consciência clara momento a momento, é uma constante percepção de si mesmo: O que está acontecendo? Que pensamento é este? Isso é uma crença? Isso é real? Isso é verdadeiro?

Nesta investigação aberta, é possível se reconhecer qualquer tipo de história, é um modo objetivo de se identificar os pensamentos. Não importando quão fortes os pensamentos possam ser, por mais relativa que seja a história, ela ainda assim é feita de pensamentos. Aprofundando nesses pensamentos, antes deles, depois deles, e mesmo durante eles, está a verdade que você é. 

Sem nenhuma negação de qualquer relevância de algum pensamento em particular, existe a possibilidade de se descobrir essa verdade.

A auto indagação direta, é a base para se descobrir se somos realmente 'alguém'
Esta investigação é raramente examinada, porque normalmente nos segue, como 'O que eu preciso, O que eu quero, O que eu tenho, O que eu não tenho, O que eu deveria ter", etc.. Estas histórias mantém a identificação da pessoa separada da vastidão da sua verdadeira identidade. Elas te mantém identificado somente com uma forma em particular, um corpo que sujeito ao nascimento e a morte. Esta identificação é a consciência da individualidade. Não há nada de demoníaco, ou mesmo algum erro sobre esta individualização. É natural na evolução e desenvolvimento do ser humano. É parte de mistério da humanidade.

Para muitos buscadores espirituais, a crença numa personalidade identificada obstrui a auto-realização, isso norteia toda uma caminhada espiritual, tendo em vista ir-se abandonando pouco a pouco esta identificação. Mas isto também faz parte da história. É importante se reconhecer isso. Se prender ao fato de que ainda se está identificado a uma história, é ainda uma outra história, um outro exemplo do poder que possui a mente.
Vejo com frequência nos círculos espirituais, ao invés de uma investigação profunda das nossas histórias pessoais, existe uma tendência à supressão das histórias. Nesta supressão, a história parece que foi removida, mas ainda não existe paz. Você não pode repousar na beleza e na transcendência de si mesmo, somente suprimindo a história de si mesmo.

A história ainda está lá, acontecendo, mas ao invés de se identificar com ela, o buscador espiritual a empurra para o subconsciente. O ego espiritual apenas está tomando o controle. A história ainda está operando, subconscientemente e isso cria confusão e sofrimento.

Este sofrimento continuado é a prova de que a sua história ainda está lá. Se você estiver disposto a investigar inclusive a sua negação, inclusive o seu ego espiritual assumindo o controle, então você poderá identificar e ver, de que história se trata.

Uma das expressões da auto-investigação é "diga a verdade". (...) 

Normalmente nós interpretamos o que sentimos, e nossas experiências como sendo verdadeiras, e nossa interpretação perpetua o círculo de sofrimentos. Nossos sentimentos, pensamento, emoções e circunstâncias são aspectos da história pessoal. A história pessoal acredita que é a verdade. 
Não importa qual seja a história pessoal, seja um castigo, seja uma bênção, não é a verdade final. Estar apto para distinguir entre a história e a verdade trata-se da consciência sábia, que acontece naturalmente pela auto-inquirição.

Grande confusão acontece nessa identificação com o corpo físico, ou com o corpo emocional, ou com o corpo mental; Quando o corpo físico experiencia a dor, nós dizemos: "Sinto dor, Me sinto mal". É comum usarmos essa linguagem;

Dizer: "Meu corpo dói, Meu corpo sente dor" possui um significado diferente. Quando o corpo emocional está confuso nós dizemos: "Estou deprimido, Estou com raiva, Estou ansioso." Por outro lado podemos dizer: "Meu corpo emocional está confuso, existe raiva, existe tristeza, existe uma ansiedade surgindo."

Não importando se você se sente feliz ou triste, você tem a oportunidade de dizer a verdade sobre seus sentimentos profundos. Isso é radical para muitas pessoas, porque quando se sentem tristes apenas querem se sentir alegres novamente. Elas negam a tristeza enquanto esta perdura, e buscam a alegria. Ou se se sentem alegres, querem que essa alegria dure para sempre...

A lei da mudança é óbvia, é evidente, e é uma das leis básicas deste planeta. Tudo muda, não só objetos mudam, mas mesmo tudo o que seja subjetivo, mesmo sentimentos, pensamentos, estados mentais, saúde - tudo está em constante mudança. Mudança é a lei dos cinco elementos do nosso universo. Mudança é a lei do clima, das estações, das horas do dia. Nessas mudanças constantes, nós podemos nos entregar e não impormos resistência, e mesmo sentimentos de tristeza, de infelicidade, são simples sentimentos de infelicidade, nada além disso. Eles não tem nenhum significado além de apenas sentimentos de infelicidade. 
Reconhecer isso é como experimentar o sol ou a chuva. Você não tem que ter sempre o sol brilhando; de fato você não tem. Do mesmo modo que ele surge, ele se vai.

Tudo está sujeito a mudança. 
O que não está sujeito à mudança? Sua real natureza. 
Qualquer coisa que pense que seja, está sujeito a mudança. 

O que permanece apesar das mudanças no seu corpo? O que permanece apesar das mudanças das circunstâncias? O que permanece quando suas emoções mudam? Diga a verdade para si mesmo. Não caia nas respostas superficiais, nem nas verdades relativas. Diga a verdade até que você reconheça a si mesmo como a imutável presença silenciosa, sempre presente, observadora de todas as experiências mutáveis e impermanentes.

Dizer a verdade é mais importante do que o despertar, mais importante do que a felicidade. A verdadeira devoção é dizer a verdade, de maneira mais e mais profunda, e então, mergulhando na sua história pessoal, em todas suas dimensões, irá lhe revelar a realidade final.

Identificar-se com o corpo, ou com uma condição passageira, é o caminho para o sofrimento pessoal. Ao mesmo tempo, apenas negar suas experiências de sofrimento, faz com que a verdade que você é, permaneça esperando para ser revelada. 
Você é radiância, consciência livre. Quando a radiância, a consciência livre é obscurecida pela identificação de ser apenas um corpo, um pensamento, uma história, ou alguma circunstância, então está se vivendo uma mentira; e enquanto esta mentira persistir, persistirá o sofrimento.

Muitos de nós vivemos vidas muito superficiais. Nós sofremos por esta superficialidade, porque em cada um de nós, vive profundamente um ser que quer conhecer, quer sentir, quer se expressar e descobrir. Enquanto nós vivermos verdades superficiais, nós tragicamente perdemos esta revelação profunda.

Nós experimentamos um sofrimento urgente do planeta, e a neste exato momento nós temos a capacidade de parar de contar histórias para nós mesmos e nos perguntar: O que está sempre presente? Tristeza está aqui, a raiva está aqui, mas o que mais está aqui? O que é mais profundo que tudo isso? 

A qualquer momento nós temos a oportunidade de dirigir nossa atenção para longe do futuro ou do passado, e nos movermos para este momento, onde podemos nos perguntar o que é presente afinal, o que é sempre presente?
Gangaji em A Diamond in your pocket
Tradução de Amidha Prem

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