2 de outubro de 2014

Sobre os desejos e a tristeza - Pedro Kupfer


"Identificados com a insegurança que por momentos toma conta da mente, às vezes pensamos coisas como “será que vou realizar meus desejos? Será que vou conseguir conquistar o que preciso para me sentir seguro?” O problema é que este tipo de padrão mental de ansiedade torna-se uma verdadeira prisão, um feitiço que nos impede o crescimento e nos tolhe a liberdade.

Quando as coisas não acontecem de acordo com nossas expectativas, ficamos presos à tristeza. Quando obtemos as coisas que queremos, mas as perdemos posteriormente, ficamos igualmente presos à tristeza.

Quando não conseguimos o que desejamos, a tristeza se apresenta, como uma sombra ominosa e silente que nos tira o sossego.
Realmente, não precisamos fazer nada em relação aos desejos e à eventual tristeza que possa surgir quando não conseguimos satisfazê-los. Compreender e aceitar que os desejos são naturais e fazem parte da ordem psicológica é o primeiro passo para se libertar da frustração que possa derivar deles.

O segundo passo é entender que a felicidade não se realiza satisfazendo os
desejos, muito embora não haja nada de errado em desejar. O erro está em achar que a felicidade possa derivar da realização dos desejos.

Em relação à tristeza e as demais emoções, tampouco precisamos fazer nada, a não ser apreciar o fato de que elas vem e vão, como nuvens no céu. Não há nada de errado em relação ao fato de, ocasionalmente, a gente acordar triste ou ter um momento de melancolia. Isso faz parte da ordem emocional, que é perfeita dentro do que ela é.

Aceitando isso, podemos, por exemplo, apreciar desde a tristeza uma música que sirva como veículo para ela. Assim, ao invés de negá-la, damos uma expressão construtiva para ela e a usamos positivamente, em nosso benefício.

A vida como ela é.

Para ter uma apreciação objetiva dessa situação, precisamos compreender a
dinâmica da vida. As coisas vêm e vão constantemente: essa é a lei da natureza.

É preciso reconhecer que nada daquilo que chamamos nosso é realmente nosso. Podemos dizer “este é meu cabelo”.
Não obstante, quando o cabelo decide que está na hora de cair, não há nada que possamos fazer para que ele permaneça preso à cabeça. Consequentemente, não podemos dizer que ele seja realmente nosso.

O mesmo é verdadeiro em relação à memória, ao vigor e à resistência física. Quando estas capacidades começam a desaparecer com a idade, não há nada que possamos fazer para conservá-las. Nenhum desses elementos ou faculdades, objetivamente falando são nossos de fato.

Portanto, não podemos nos afirmar como donos de nada. Isto é o que poderíamos chamar de olhar desapegado e objetivo em relação ao corpo-mente, o que não significa ser descuidado, impiedoso ou irresponsável com ele.
Felizmente existe uma técnica para livrar-se do feitiço, da influência que as
crenças limitantes têm sobre nós. A técnica consiste em apreciar objetiva e
desapegadamente a justiça inerente e a perfeição presente nas leis da natureza.

O apego e a identificação com aquilo que considero meu, e a tristeza que se segue quando perco o meu são conseqüências da ignorância existencial. Então, “perfeição na ação”, como ensina a Bhagavad Gita, significa desligar-se da tristeza e as demais formas que o sofrimento assume, através da compreensão daquilo que verdadeiramente sou. Esse é o verdadeiro sentido do Yoga: união com o que se é, e separação daquilo que não se é.

A natureza como ela é.

Não é possível separar-se da sua própria natureza. Por exemplo, quando a água está quente, esse calor não é da natureza da água. Ele só acontece na água quando ela está associada com o fogo. A água pode desassociar-se da natureza do calor, mas o fogo não. A natureza do fogo é o calor.

É impossível renunciar àquilo que é natural para si mesmo. Não posso me
queixar daquilo que é natural em mim. A minha temperatura é de 36,5 graus. Mas isso não me incomoda, pois é a natureza do meu corpo. Quando o corpo se aquece um pouco mais, me sinto impaciente e desconfortável e quero me livrar desse desconforto.

Se a tristeza fosse mesmo a minha real natureza, eu não poderia nem deveria
desistir dela. No entanto, todos queremos ver a tristeza bem longe, mas ninguém quer se livrar da felicidade ou da alegria.

Porque isso acontece? Porque lá no fundo, você tem a certeza de que a tristeza não é natural e a convicção de que a felicidade lhe é natural sim.

Você age no mundo e recebe os frutos das suas ações. Às vezes, esses frutos são vistos como desejáveis, outras vezes como indesejáveis. As experiências vêm e vão, na vida de todos. Isso apenas acontece, independentemente de sermos cientes ou não. Até mesmo os sábios vivem adversidades, mas eles sabem como enfrentá-las, pois têm a capacidade de olhar para as coisas objetivamente, engajados na apreciação da verdade.
Sem o entendimento adequado, os meios se tornam o fim, e o fim, que é a plenitude, se perde de vista. Nessa situação, o mais provável que aconteça é que, dominado por um feitiço, por uma crença, eu acabe fazendo ações que irão posteriormente trazer resultados indesejáveis, para mim mesmo e para os demais. Agir dominado pelo desejo ou pelas emoções é arriscado.
Eu, como sou.
É bom lembrarmos que já somos toda a felicidade que procuramos. As limitações do corpo-mente são restritas ao corpo-mente e pertencem unicamente a ele. Não são nossas, no sentido de que o Eu não tem posses de nenhum tipo. O Eu apenas é. Fisicamente somos limitados: em termos de
força, resistência, longevidade ou tamanho.

Intelectualmente, temos igualmente capacidades limitadas: não conseguimos
memorizar os números de telefone de todos nossos amigos, não vencemos o nosso computador num simples jogo de xadrez, não falamos mais do que um punhado de línguas e, às vezes, nem sequer lembramos o que comemos ontem.

Agora, o Eu, está muito além das limitações físicas ou intelectuais que
possam estar associadas a ele. O fato de não saber falar polinésio ou não
compreender os corolários da teoria da relatividade são limitações inerentes ao intelecto, não ao Eu.

Isso não nos torna limitados. O Eu que você é, está além dessas limitações. Quem é este Eu? Aquele que pode ser apreciado, não com os olhos do rosto, não com a mente, mas com a Consciência.

O ensinamento essencial dos Vedas, resumido na afirmação tat tvam’asi, “você é Isso”, ou o ser individual é idêntico ao Ser ilimitado, deve ser compreendido e aceito se quisermos uma vida tranquila, apesar as dificuldades inerentes a qualquer existência humana.

Essa identidade com a plenitude existe e é um fato, apesar da distinção que possamos fazer em termos do sujeito que eu sou e os objetos que aprecio.
A distinção sujeito-objeto não contradiz a não-dualidade, a visão da unidade que permeia todo o ensinamento do Yoga. Este é o conhecimento eterno, sempre significativo e atual, que nos traz inspiração para viver uma vida
feliz e plena.
Namaste!"
Pedro Kupfer em Como lidar com os desejos e a tristeza

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