30 de outubro de 2014

Razão e Coração - Pedro Kupfer


"Nas escrituras do Yoga a palavra coração sempre aparece vinculada à consciência, ou a uma maneira de se referir a ela a partir do corpo. Por exemplo, o Yogasūtra (III:35), afirma que “[meditando no] coração, o yogi adquire conhecimento da própria Consciência”.
Por outro lado, a Śvetaśvatara Upaniṣad (II:8), um texto muito mais antigo que o próprio Yogasūtra, ensina o seguinte: “Mantendo o corpo firme, como as três partes eretas [tronco, pescoço e cabeça], o sábio dirige os sentidos e a mente ao interior do coração. Brahman é o barco em que ele atravessa o rio do medo”.
Assim, vemos que o coração ocupa um lugar central no processo do autoconhecimento, pois é uma referência, um ponto de conjunção, digamos assim, entre corpo, mente e Consciência. Por exemplo, quando nos referimos a nós mesmos, apontamos naturalmente com as mãos para o coração.

Quando precisamos fazer referência às coisas do ego, também apontamos para o coração.
A Kaṭha Upaniṣad (I:2:20), outro texto antiquíssimo de Yoga, declara que o coração é o lar da Consciência: “Menor que o infinitesimal, maior que o grandioso, o Ser reside no coração de todas as criaturas. Aquele que domina [a identificação com] seus próprios desejos liberta-se de todo sofrimento e, com a mente e os sentidos em paz, percebe a grandeza do Ser”. Assim, podemos considerar que o coração seja uma espécie de ponte entre o finito e o infinito, entre o corpo-mente e o Ser.

Na fisiologia sutil do Haṭha Yoga, fala-se do “nó” (granthi) do chakra cardíaco que limita, através dos karmas, a experiência da consciência ilimitada apenas ao ego, à mente ou ao corpo físico.
Usando diferentes ferramentas, o yogi tenta cortar esse nó e se libertar dele.
Porém, essa escravidão é aparente, mesmo quando para a pessoa identificada com seus condicionamentos essa seja a única realidade. Essa situação acontece porque ela está enredada nos próprios karmas e não enxergar além deles.

O desejo de vencer a morte, de compreender o que há antes e depois dessa passagem, é tão antigo quanto universal. Na tradição da Índia, “vencer a morte” significa abrir o coração, como fica claro nesta outra passagem da obra que acabamos de citar: “Desfazendo os nós que estrangulam do coração, o mortal torna-se imortal. Essa é a síntese dos ensinamentos das escrituras” (II:3:15).
Os “nós que estrangulam o coração” são as falsas crenças, os condicionamentos e ideias equivocadas que temos sobre nós mesmos.

Percebemos, assim, a bela conexão que os śāstras fazem entre coração e Consciência. Por outro lado, cabe lembrar que não há diferença entre a Consciência e o conhecimento da Consciência. Para saber quem somos, precisamos de conhecimento. E, esse conhecimento, é intelectual.

Não obstante, algumas pessoas atualmente usam a expressão “fazer as coisas com o coração” separando coração e razão como se ambos fossem incompatíveis. Essa visão fragmentária pode causar problemas, uma vez que não existe a tal incompatibilidade entre razão e coração. Pelo contrário, eles estão intrinsecamente ligados.

Conhecimento, de fato, é algo intelectual.
Qual é o problema em relação a isso? O fato de usarmos a inteligência que nos foi dada por Īśvara nos torna necessariamente insensíveis, egoístas ou arrogantes? Creio que não.

Não estou dizendo aqui que não devamos praticar nem que devamos olhar “teoricamente” para o Yoga. Se o objeto de estudo do Yoga e o Si Mesmo, o Yoga não pode ser uma teoria, pelo simples fato de que o Ser que você é, não é uma teoria.
Isso deve ficar claro.

Chegando neste ponto, lembro de uma frase que ouvi do meu mestre, Swāmi Dayānanda, uns meses atrás: “Tem gente que diz que conhecimento é algo intelectual e que mokṣa deveria ser algo diferente, que não acontece no intelecto. Conhecimento é intelectual. Mastigar é dental. E daí?
Onde é que o conhecimento deve ter lugar?
Onde é que ele acontece? No fígado? Nos joelhos? Por que esta alergia à palavra intelecto?”

Ninguém pode ter motivação para a liberdade sem fazer vichāra, sem questionar, sem aprender ou estudar. Mirabai, a grande santa do século XVI, é tida por muitos como uma devota que não estudou, uma pessoa que acredita cegamente em Kṛiṣṇa.
Porém, olhando para sua poesia, percebemos que o autoconhecimento está inteiro lá: “O conhecimento dado a ela por ele [o guru], secou o oceano do saṁsāra. Mira diz: meu mundo inteiro é Kṛiṣṇa. Agora que meu olhar voltou-se para o interior, vejo isso claramente”.

Isso é conhecimento, já que Kṛiṣṇa é Consciência. E esse conhecimento é sempre intelectual, com perdão da palavra e sem entrar em conflito com a devoção, já que a segunda é a consequência natural do primeiro." 

Pedro Kupfer em O Coração no Yoga

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