4 de outubro de 2014

Matéria e Consciência - Osho


"Essa é uma questão muito básica. Tem que ser entendida em muitos passos. Primeiro, ninguém pode ver você senão você mesmo, porque os outro só podem ver sua periferia, não você. Podem ver seu corpo; podem ver seus olhos, seu rosto, mas não você. Você está escondido bem fundo por trás. Estes são apenas cortinas; são como nuvens. Sua luz, sua chama de vida, estão ocultas bem fundo atrás. Ninguém pode penetrar aí, você é impenetrável.

Exceto você, ninguém pode vê-lo. Exceto você, ninguém pode tocá-lo. Exceto você ninguém pode sentir quem você é.

As pessoas podem se mover em torno de você apenas na periferia; ninguém pode alcançar seu centro. Nem você pode alcançar o centro de ninguém. O cerne mais íntimo é absolutamente privado. Nem mesmo os amantes podem penetrar nele.

Essa é a infelicidade dos amantes. Eles gostariam de penetrar um no outro, gostariam de ir o mais longe possível, gostariam de se encontrar, se fundir e se tornar um só, e todos os esforços falham. Independente do que façam, descobrem que não tem sucesso. Em algum lugar eles continuam sendo dois. Em algum lugar a separação permanece. Eles podem esquecer que são separados, mas não podem se tornar um só.
Essa é a infelicidade do amor, o sofrimento, a angústia, porque o amor gostaria de se tornar um. O amor gostaria de perder toda a separação, todos os limites. Mas repetidamente se chega ao limite, à limitação.

Então, este é o primeiro fato básico a ser entendido: que com exceção de você mesmo, ninguém pode penetrar na sua privacidade; Essa é a diferença entre uma pedra e você. A pedra pode ser penetrada até seu âmago; ela não tem privacidade. Essa é a diferença entre a matéria e a consciência.

A matéria não tem privacidade; a consciência tem privacidade; A matéria pode ser entendida de fora, porque a matéria não tem interior; Não há nada interno na matéria, tudo é externo; E na consciência é justamente o contrário: tudo é interno e nada é exterior.

A consciência é uma interioridade infinita.

A consciência é profunda, a matéria é superficial. A matéria é como as ondas no oceano; você, a consciência é a profundidade do oceano. E essa interioridade nunca pode ser penetrada, porque uma vez penetrada, ela se torna uma coisa pública, torna-se um objeto. Não é mais interna, torna-se externa. Se alguém puder enxergá-lo, você fica reduzido a um objeto, uma coisa. E então deixa de ser um homem. (...) Sempre que você acha que está reduzido a uma coisa, não se sente livre, não se sente feliz. Você se sente muito, muito reprimido. Essa é a infelicidade de um escravo, ou de ser um criado. (...)

A pergunta que você me fez é: "Às vezes eu acho que não existo. Quando entro em uma sala ninguém me vê."
Ninguém pode ver você. Pelo simples fato de ninguém pode vê-lo, não pense que você não existe. (...) Sinta-se abençoado por ninguém poder enxergá-lo, por mais que tentem. Mesmo que as pessoas usassem lentes de aumento, não poderiam enxergá-lo. Você é elusivo *[elusivo - aquele que é obscuro, difícil de ser explicado ou entendido, vago]  - essa é sua subjetividade, essa é a sua alma, essa é a sua dignidade. Essa é a beleza e o mistério da vida; o fato de ninguém pode enxergá-lo, senão você mesmo. Essa é a sua privacidade. O mundo é belo, porque nele pelo menos uma coisa é privada - sua consciência. Do contrário, tudo seria vendido no mercado. Sua consciência não pode ser objetificada. Por isso os Upanishads dizem: o conhecedor não pode ser conhecido; o conhecedor não pode ser visto. O conhecedor pode sentir a si mesmo; o observador pode ver a si mesmo.

Em segundo lugar, se você não pode ser visto pelos outros, como pode perguntar se será capaz de ver Deus? Se até um ser humano tem uma privacidade bem no fundo dele que ninguém pode penetrar, então o que dizer de Deus? As pessoas vêm até mim e dizem: Diga-nos como ver Deus. São pessoas tolas. Elas acham que são muito inteligentes e estão fazendo uma pergunta muito inteligente. Se nem mesmo a consciência humana jamais pode ser vista, como você pode enxergar a consciência do Todo? Você pode se tornar um com ela, mas não pode vê-la. Pode se dissolver nela, mas não pode vê-la.(...)

Deus está no espaço interior porque Deus é consciência absoluta. O homem é consciência parcial; e se nem essa pode ser vista, que dirá a consciência total, o Todo?
Só pelo fato de que você não ser visto, não pense que não existe. Você existe, mas não é um objeto. Você é subjetividade. É o observador, não o visto. Você vê, mas não pode ser visto. Sua natureza é ser um observador, uma testemunha; sua natureza não é ser um objeto.

Você diz: "Quando eu falo ninguém escuta. Quando um amigo me toca, não sou sólido." Ninguém pode tocá-lo. Tudo o que pode ser tocado não é você. E eu sei que aquilo que pode ser tocado não é de modo algum sólido. O corpo está florescendo, continuamente florescendo. Pergunte aos fisiologistas. Eles dizem que no decorrer de sete anos o corpo torna-se completamente novo. Nem uma única célula permanece velha. É um fluxo contínuo, como um rio, continuamente fluindo; Parece sólido, assim como a parede parece sólida, mas não é. Os átomos correm na mesma velocidade que a luz, movendo-se continuamente. O movimento é tão rápido e a velocidade tão extraordinária que não se consegue enxergar o movimento. Não se consegue enxergar a velocidade, e por isso a parede parece ser sólida.

Seu corpo é um fluxo contínuo - ele está fluindo como um rio. Mas o fluxo é tão rápido que você não consegue vê-lo. E você acha que ele é substancial, sólido - mas não é. Sua mente também não é sólida: os pensamentos estão continuamente se movendo. Como as nuvens, as formas aparecem e desaparecem.

Mas você? Você não é um fluxo, não é um fenômeno em movimento. 

Você é a eternidade. 

Não estou dizendo que seja sólido. Você não é sólido nem líquido. Você transcende todas as categorias. Você é apenas espaço, um enorme vazio. E desse vazio todas essa flores florescem.

As pessoas são flores de vazio, formas de nada. É o que queremos dizem quando falamos "Deus não tem forma, mas as pessoas são todas formas dele. Deus não tem nomes, mas todos os nomes pertencem a ele." O informe se transforma em milhões de formas, e o inominado assume milhões de nomes.

Ninguém pode tocá-lo, ninguém pode vê-lo, ninguém pode ouvi-lo, porque todos esses ouvidos, olhos toques pertencem ao corpo, não a você. Você é sempre o elusivo, aquele que elude; o misterioso, o desconhecido, o incompreensível.

Mas, por causa disso, não comece a achar que você não existe. Você existe, mas é subjetividade, irredutível e um objeto.

Este é todo o esforço da meditação: trazê-lo ao ponto em que você pode cair na sua própria subjetividade, onde pode desaparecer em sua própria profundidade, onde pode vir a entender aquilo que habita você - não nascido, imortal, eterno.

O simples fato de entender isso, é se perder. O 'eu' que você pensa que é você não é; e o você que você é, nunca nem pensou sobre ele. O 'eu' que você pensa ser é o 'eu' visto pelos outros, amado pelos outros, odiado pelos outros. O 'eu', o ego, não é nada além das opiniões de outros. O 'eu', o ego, não é nada além das opiniões de outros que você coletou sobre você. Esse 'eu' não é você, mas você está identificado com ele. Você é aquele 'eu' que nunca foi visto por ninguém, que nunca foi sequer tocado por ninguém. Não corrompido, não tocado, não contaminado, virgem, absolutamente puro, a própria pureza - esse é você.

Deixe de lado o que você não é, para poder saber o que você é. Todo o meu ensinamento é este: deixe de lado aquilo que você não é. Isso parece paradoxal. Estou lhe dizendo para renunciar àquilo que você não tem. Jogue fora aquilo que você não tem, para que aquilo que você é possa se manifestar para você, possa ser lhe ser revelado."
Osho em A Jornada do ser humano 

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